Tá todo mundo tentando: caminhar

A Bela Vista e suas microrregiões.

🎶 para ouvir enquanto lê: “Silêncio no Bixiga”, de Geraldo Filme com abertura do Plínio Marcos. Geraldo Filme foi um dos principais nomes do samba paulista e recebeu homenagens do Itaú Cultural em 2012 e do SESC em 2020.


Crescer na cidade é meio sem graça. Não tenho lembranças tipo jogar bola na rua. Da minha infância na Vila Madalena lembro que queria mais ou menos o que as crianças de hoje querem, que é jogar videogame e brincar com bonecos de plástico.

Minhas memórias de crescer na cidade são de aprender a fazer as coisas sozinha: atravessar a rua, buscar pão na padaria, devolver VHS na videolocadora, voltar da escola, ir na mercearia comprar refrigerante levando casco de vidro, talvez usar o troco para comprar bala. Mudou um pouco quando comecei a pegar ônibus sozinha, aprendi a caminhar sem chamar atenção e comecei a descobrir a cidade com meus pés. Não me importava de andar dez quadras para ir até uma banca de revistas ou vinte até a saída da escola dos meus amigos. Na pré-adolescência, me tornei conhecedora dos atalhos, escadões e linhas de ônibus da área, um pacote extraviado sempre fora do alcance.

Quando mudei de bairro pela primeira vez foi da Vila Madalena para Moema. Eu tinha 14 anos. Eram tempos pré-internet ou telefone celular, e perdi todas as referências, inclusive os amigos da escola. Precisei criar outras, e foi caminhando pela área nova que me entendi. Saia de casa sem destino certo, só para andar. Essas andanças acabaram me levando para outras partes da cidade: Santa Cecília, República, Consolação. Faz tempo, mas o apego por caminhar nunca cessou. Em diferentes fases, casas, viagens, sempre andei muito.

Hoje, em bairro algum gosto tanto de andar quando na Bela Vista, esse novelo de ladeiras, grafites e casarões desmantelados, que se tornou meu lugar em São Paulo. A parte de cima do bairro tem ruas retas decoradas por prédios bonitos com janelas enormes e fachada de pastilhas. A região muda conforme desce na direção do Centro: se transforma num bairro mais histórico e real, com cortiços na iminência de desbarrancar durante as chuvas de verão.

Caminhando pela Bela Vista entendi que foi aqui que cresci. Tenho muitas memórias no bairro. Por exemplo, num terreiro nos fundos de uma casa velha, um pai de santo do Candomblé me disse que eu precisava aprender a nadar no vagalhão, porque minha vida seria uma sucessão de vagalhões e calmarias. Dancei na quadra da Vai Vai, atravessei por baixo do viaduto andando por cima de gente de rua, comprei arruda na loja do preto velho, fiquei com a bunda quadrada vendo peça no Oficina, levei meu filho para comer cannolis na rua dos italianos e comi no restaurante bom-mas-meio-caro que fica dentro do sacolão. Comi pastéis em todas as feiras do bairro – são todos iguais. No Baixo Augusta, que também é Bela Vista, as lembranças são extremas: fui expulsa daquela boate por estar cheirando cocaína atrás da cortina, terminei um caso com um peguete naquele boteco horroroso com luz verde e litrão por $5, entrei muito no café daquele hospital para comprar bomba de chocolate, sempre de madrugada. Mas também aprendi a comprar castanhas para fazer leite, na loja de produtos orgânicos da Frei Caneca, e até hoje compro frango assado com batatas no Vinhares para comer em casa com meu filho, aos domingos. Em mais de vinte e cinco anos frequentando a área, tomei muito porre em bar-galeria de arte, levei o crush pra cortar o cabelo naquele salão da Augusta, sambei com o Bloco Soviético, tomei um fora do cara que de quem eu gostava numa calçada qualquer, dei uns beijos no escuro vendo “Kids” com um moço que eu adorava, comi canja no restaurante mineiro meio falso, vendi roupas num brechó depois fechou porque o dono cometeu suicídio.

Tenho muitas, muitas outras lembranças, incluindo uma ali na Brigadeiro na altura da Major Diogo: quando tinha uns 14 anos, ganhei uma benção de um mendigo. Era acho que umas dez da noite quando ele pediu dinheiro. Conversando, eu disse que só tinha aqueles trocados, meu dinheiro do ônibus, mas que não tinha problema, porque eu podia ir andando. E era verdade. Ele perguntou onde eu ia e eu disse que ia para a zona sul. E era verdade, eu estava indo para a casa dos meus avós (que não existe mais, nem a casa, nem os avós). Ele quis me devolver o dinheiro e falei que não precisava, porque ele tinha que comer e eu podia andar. Além do mais eu gostava de andar de noite, o que também era verdade. Então ele pediu licença, me pegou pelos ombros e me passou uma benção, ali no ponto de ônibus da Brigadeiro perto da Major Diogo. Foi a primeira vez que eu senti o corpo formigando – quem tem, sabe. Ele disse que eu nunca ia precisar ter medo de andar na rua, porque na rua nenhum mal ia me acontecer, porque o povo da rua cuidava de mim. Só muito tempo depois, aprendendo a rezar no terreiro ali no Bixiga, entendi o que a rua significava. De novo: quem tem, sabe.

Ps: atravessando para as bandas da Liberdade tem aquela igreja com um velário no subsolo, que só os aflitos de São Paulo conhecem. Um lugar escuro e quente, com cheiro de parafina e tristeza. Mas com alguma coisa de esperança também. Porque só reza quem tem alguma esperança no coração.

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📥 Paulicéia

Desculpa o tom over paulistano das últimas edições. Juro que a TTMT não é uma newsletter com foco em São Paulo. Mas tô há tempo demais sem viajar e meus deslocamentos mais longos em 2021 foram até o Butantã para visitar meu filho. Ademais, por causa do Paulicéia o tema ~cidade~ tem dominado minha vida mesmo. Desculpa, é que eu só funciono na base da obsessão.

¯\_(ツ)_/¯

Dito isso, o tema da semana no Paulicéia é o trabalho do Secretário Municipal de Cultura, Alê Youssef com uma entrevista em duas partes -> na primeira falamos sobre Carnaval e celebração do centenário da Semana de Arte de 1922, na segunda falamos sobre as ações da Secretaria durante a pandemia.

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🗿 Neve da manhã de São Paulo

Romance histórico com foco no envolvimento do Oswald de Andrade com a adolescente ‘Miss Cyclone’. A bem da verdade, desgosto do Oswald e ignoro essa parte. Se você também conseguir fazer isso, o livro de José Roberto Walker é uma delícia, com descrições da São Paulo do começo do século passado, as greves operárias e a mudança de cenário da cidade, cada vez mais industrial. Com ótima pesquisa, é um belo documento, ainda que ficcional, que ajuda a explicar como São Paulo se tornou o que é hoje. E, sim, nevou em São Paulo. 1918 foi um ano e tanto.


🎙️ Bienal 70 anos

Podcast novo do UOL com as histórias por trás da Bienal de Arte de São Paulo. Dividido por décadas, além da ótima reportagem, tem a voz da Marina Person. O primeiro episódio é esse abaixo, dos anos 1950, e fala sobre o Ciccilo Matarazzo, a ‘Guernica’ de Picasso e uma porção de causos ótimos. Vai lá.


🎫 Museu do Ipiranga no Instagram

O Museu do Ipiranga é o equivalente paulista (e menor) do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Fechado há quase dez anos por causa das péssimas condições do prédio, finalmente se prepara para reabrir em 2022, após longa reforma. O espaço do museu no Instagram tem mostrado peças do acervo e descobertas das escavações no entorno, que rendem momentos muito especializados tipo esse post sobre a oxidação de dobradiças antigas. Não vou negar, amo.


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