Tá todo mundo tentando: pensar a morte

Tá Todo Mundo Tentando é uma newsletter semanal com crônicas do mal-estar da vida em 2021.

Pra ouvir enquanto lê: “King’s Crossing”, Eliott Smith

Em resposta ao email da semana passada, D. perguntou “como você enxerga a morte?” e minha primeira reação foi uma torção no canto da boca — não sei se consigo escrever sobre morte quando ela está tão presente.

Na troca de emails falamos um filme que está nos streams, “Blackbird” (“A Despedida” em português), em que a Susan Sarandon é uma mãe que decide fazer suicídio assistido, mas antes promove um encontro de família em sua belíssima casa de frente pro mar. Dramas à parte (e são muitos) é assim que eu gostaria de ir, me despedindo com graça daqueles que escolhi ter por perto. Privilegiadérrimo isso, e não acho que exista jeito melhor de morrer. Talvez só o velho Corleone brincando no laranjal com o netinho antes do ataque cardíaco.

Outros filmes sobre a escolha da própria morte vieram na cabeça. ”Thelma e Louise”, com a mesma Susan Sarandon, talvez, mas não é bem assim. ”As Invasões Bárbaras” toca no mesmo tema, só que aqui é um patriarca que vai morrer e quer ser perdoado. Mais pra perto do nosso hoje, tem um episódio ótimo na primeira temporada de ”Grace and Frankie” em que uma amiga doidinha da dupla faz uma boa festa pré-morte. O episódio é centrado nas reações das protagonistas: Grace acha que é preciso fazer alguma coisa para impedir. Já Frankie apenas vai com o fluxo e ajuda a amiga com a passagem.

Na vida, acho, sou mais Frankie do que Grace. A morte vem. Tirando meu avô, nunca sofri muito com as passagens das pessoas que amo. Minha mãe disse que é porque ainda não entrei na idade em que os amigos de toda vida começam a morrer, e ela deve estar certa. De qualquer forma, o que penso sobre a morte é que é uma coisa a ser aceita, o que não significa que é fácil de lidar. Apenas é.

Isso, claro, é o oposto do que vivemos no Brasil: quase quatrocentas mil mortes em um ano e pouco de pandemia. Cada uma delas evitável. Somos recordista mundiais de vítimas por coronavírus e temos uma elite local capaz de aplaudir o capitão do pelotão de morte em jantar, uma sociedade capaz de aglomerar com cartaz dizendo ”fraudemia” - absurdo diário, indizível. Aqui não tem nem piada e nem comparação com personagem de filme. É inviável.

De volta a D., uma das minhas pessoas preferidas no mundo e com quem tenho lembranças de fervos em pistinhas, de Carnavais nas ruas em São Paulo, de ver cerimônia do Oscar bebendo champagne e comendo pipoca, de ir ao cinema só pra ficar dez minutos e acabar indo prum bar beber vinho e fazer update de vida, de riso alto quando presos em congestionamentos da Raposo Tavares indo pro escritorio de manhã. D. traz pro meu feed imagens do mar e longas sessões de montagem de quebra-cabeças numa mesa de sala, “QC, como chamam nos grupos de troca”. Pré-pandemia cheguei a falar uma porção de vezes “vou descer pra praia, passar uns dias aí com vocês”. Não aconteceu porque a vida do paulistano é essa coisa escrota com pouco tempo pra ser feliz, mas fica aqui o desejo de que sigamos entre as pessoas vivas e possamos rir juntos das histórias de quando éramos só jovenzinhos fervidos e despreocupados na esbórnia paulistana.

PS: há cerca de um ano escrevi uma ficção curta sobre o futuro retorno à normalidade hipotética. No texto, a protagonista conta como foi sair de casa após um período não muito claro de isolamento. Usei algumas ideias da vida real, que é como a ficção funciona pra mim. Enquanto estava escrevendo tive que escolher um número que soasse absurdo, descabido, irreal, para dar conta do tamanho da tragédia brasileira. Escolhi um milhão. Estamos em 375 mil, sendo que mil mortes a cada 24 horas se tornou um número aparentemente aceitável pelas pessoas — em alguns dias foram quatro mil. Nem nos piores pesadelos eu achava que poderíamos chegar nisso.

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para ouvir -> Vamos falar sobre música?

Vamos, sim. Essa semana conversei com os ~jovens do podcast VFSM sobre alguns dos grandes discos lançados no distante ano de 2011, um ano especialmente produtivo no mundo todo e também o ano do Goo, programa de “novas tendências musicais” que apresentei durante oito meses na extinta MTV Brasil – inclusive, cata a playlist comemorativa que montei com a ajuda dos universitários do Instagram. E, sim, a gente sabe que ficou disco de fora, desculpa, não tinha como incluir tudo, etc.

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para pedir -> Cozinha Ocupação 9 de Julho

Não sou muito adepta de delivery. Me viro muito bem comprando e preparando minha própria comida, coisa que aprendi quando fui morar sozinha (há mais de vinte anos), que melhorei quando me tornei mãe (há uns dezesseis anos) e que aprendi a valorizar muito depois que ~tudo isso aí começou (há um ano e tanto). Mas sei da importância das entregas para ajudar a sobrevivência dos pequenos restaurantes e bares nas cidades e, verdade seja dita, também sou acometida da preguiça de cozinhar e lavar louça. Quando é o caso de juntar as duas coisas, vale lembrar da Cozinha da Ocupação 9 de Julho, ligada ao Movimento Sem Teto do Centro de São Paulo, que todos os domingos entrega comida preparada por um/a chef convidado/a. Tem que ficar de olho no Instagram pra acompanhar a programação e garantir o pedido o quanto antes. Além de garantir uma comida honesta e saudável no seu domingo, você também ajuda com a alimentação da população desabrigada da cidade (cada quentinha pedida significa duas distribuídas) e colabora com os Entregadores Antifacistas. // Para saber como funciona a Ocupação 9 de Julho e entender a luta do Movimento Sem Teto do Centro, dá uma olhada na reportagem que fiz por lá em 2020.


newsletter amiga da semana -> Aline Valek

A Aline Valek desenha, escreve, faz podcasts e é autora da adorável newsletter Uma Palavra, disponível gratuitamente aqui no Substack, com ótimos textos autorais e dicas culturais — ou seja, tá certo dizer que é minha inspiração pro Tá Todo Mundo Tentando. A Aline faz tanta coisa legal que é até difícil seguir, então ajudo: além da newsletter já linkada acima, tem o ótimo podcast Bobagens Imperdíveis, os trabalhos como ilustradora e, claro, os livros publicados de forma independente – o compilado “bobagens imperdíveis para ler numa manhã de sábado” e seu irmão “para ler na quarentena” são companhias deliciosas pruma tarde no sofá.

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chegou aqui -> “A palavra que resta”

Lindo romance de estreia do escritor cearense Stênio Gardel, acabou de sair pela Companhia das Letras. Conta a história de Raimundo, um homem de 71 anos que decide se alfabetizar e ler uma carta que carrega desde a juventude, escrita por Cícero, que foi seu amante há mais de meio século. É um livro triste sobre a dor das exclusões, e uma história apaixonante sobre o poder das palavras. Gardel fala sobre diferentes aspectos da sua criação na edição dessa semana do Rádio Companhia, o podcast da editora.

para ler -> “Feeling Blah During the Pandemic? It’s Called Languishing”

O começo da semana trouxe um novo termo pra gente tentar definir o não-lugar emocional de 2021: "languishing”, ou simplesmente meh, em boa análise do New York Times. Não tem uma tradução muito exata em português, pode ser algo como languidez ou definhamento, mas você que está lendo deve reconhecer a sensação de não sentir nada de forma completa. Languishing define o que estamos não-sentindo ao “ver a vida através de uma janela embaçada”. Mas não acho que define o que sentimos quando não temos forças sequer para revoltar com o absurdo diário, não darmos conta do que significa quase meio milhão de mortes. Deve existir alguma palavra mais adequada para o luto emocional do brasileiro. Mas não sei qual é. // O texto do NYT está em inglês, mas o CanalTech explica direitinho o assunto em português.

me manda uma dica pra próxima edição