Tá todo mundo tentando: escrever

nem esperança, nem medo

Pra ouvir enquanto lê: “Pretty in Pink” do Psychedelic Furs, ando muito em contato com minha gen-x interior e adoro essa guitarra, esse filme e o Duckie Dale <3 Spotify/Youtube


Nos comentários da publicação da semana passada, a Michele me pediu para escrever sobre escrever. Tá bem, vamos.

Existem dezenas de livros sobre escrever de gente que realmente escreveu muito na vida — o Hemingway, o Stephen King, a Zadie Smith, a Toni Morrison. Acho que parte da graça de falar sobre escrever é menos sobre as dificuldades da prática e mais sobre o fato de que botar no papel pensamentos, memórias, ideias e histórias tem algo de mágico. Pra quem escreve é inevitável pensar em como se escreve, como escrever mais, como escrever melhor. E também é natural querer passar adiante um tanto do que se aprendeu, numa mistura de generosidade com egolatria.

Outra parte da graça está na inexistência de uma fórmula universal para escrever. Há tantos conselhos quanto escritores e suas obras: escreva de manhã, escreva de tarde, escreva a noite toda, escreva à máquina, escreva no papel, escreva no Scrivener, escreva bêbado, tome café, tenha um diário, saia das redes sociais, alimente sua musa, faça um pacto com o diabo.

Do alto da minha parca experiência, acredito que só existem três conselhos que valem a pena. Primeiro, para escrever é preciso ler muito e sempre. Ler com paixão, ter amor e interesse genuíno pela leitura. Segundo, desculpa a obviedade, mas para escrever é preciso escrever mesmo. Ninguém vai fazer isso por você. Tem que ter comprometimento com a escrita. De preferência todos os dias, inclusive domingos. Terceiro, é preciso baixar a guarda e permitir que outros leiam o que você escreveu. Tenha uma pessoa próxima sua que possa ler e dar conselhos, fale com essa pessoa sobre que sentimentos seu texto passou ou deixou de passar, ouça críticas. Escreva de novo, compartilhe de novo.

E faça cursos, leia poesia, tente reescrever textos dos quais você gosta, tente escrever em diferentes vozes, leia em voz alta, crie sua rotina, busque de forma incansável o seu estilo próprio. Mesmo que nunca 100% satisfeita com o que escreveu, escreva até estar confortável: é quando você vai saber que encontrou sua voz, a sua expressão pessoal pela palavra. Sua voz é a coisa mais importante de todas, o resto é jujuba.

Minha mãe diz que eu era uma criança quieta, que gostava de ficar no quarto com meus livrinhos e minha vitrola. Na adolescência criei o hábito de escrever diários, muitos, sempre como forma de supervalorizar meus dramas. Depois comecei a escrever sobre música, por incentivo de amigos. E fui ficando, aprendendo a encontrar espaços onde pudesse receber um capilé por palavras bem colocadas. E uma hora entendi que escrever é a única atividade remunerável na qual vou ficar melhor conforme os anos forem passando. Além do mais, é charmoso.

Mas escrever pode ser maçante, solitário e uma fonte e tanto de insegurança. Essa característica neurótica e autocentrada da escrita acaba por tornar as pessoas que escrevem meio insuportáveis — tenho alguns amigos escritores que são pessoas adoráveis e divertidas, mas só alguns. A questão é que se mesmo tentando evitar, passando perrengue financeiro e se cercando de pessoas meio malas, se mesmo assim você não tem vontade de parar, é porque você nasceu para fazer isso mesmo. Aceita. Insiste.

Eu escrevo em vários momentos, mas a melhor hora é de manhã bem cedo, após tomar café e antes do dia começar. Funciona porque ainda não estou distraída com outras coisas e depois que escrevi (umas páginas de diário, um parágrafo de reportagem, uma crônica para a newsletter, um trecho do meu livro) levo para o resto do dia uma sensação de missão cumprida. Por aqui o compromisso com escrever diariamente faz um bem danado, sem esperança nem desespero. *

Há uns meses sai do meu trabalho numa firma e passei umas semanas em um tipo de sabático doméstico express, lendo, escrevendo e desintoxicando do ambiente onde estive imersa por dois anos e meio. E sempre que pensava no que quero fazer agora a resposta vinha: “escrever”.

Escrever o quê? Coisas, crônicas, contos, artigos, o romance que enrolo há uns cinco anos. Tenho idéias que reparto com uns dois, quem sabe três amigos. Guardo meus planos até começá-los. E se às vezes eles não começam é porque às vezes as ideias vão ficando rarefeitas na rotina até sumirem. É uma pena, mas é o que é.

A beleza disso é que outras ideias sempre surgem. Tá aí a graça: para quem escreve, existe uma fonte que nunca seca.


* Essa frase é repetida pelo Gustavo Pacheco em seu curso de narrativas breves para falar da importância da prática da escrita. Nec spe, nec metu — nem esperança, nem medo.


para escrever: cursos da Escrevedeira

O curso de narrativas breves do Gustavo Pacheco que mencionei acima é da Escrevedeira, uma escola de escrita na Vila Madalena que tem oferecido altos cursos à distância durante a pandemia. Em junho, eles abraçam temas como narrativas indígenas, “As mil e uma noites”, e Tchékov (meu amor), além de oficinas de escrita com Socorro Acioli, Brune Carvalho e João Carrascoza.


para ler sobre escrever: Anne Lamott

Li em uma viagem de trem entre São Francisco e Portland no auge de uma crise de “quero escrever mas não sei”, bem clichê. A Anne Lamott mistura suas memórias de infância com uma porção de boas sugestões para quem quer escrever ficção, e esbarraria na autoajuda não fosse seu ótimo senso de humor. Em português chama “Palavra por palavra”.


chegou aqui: “Chão em chamas” do Juan Rulfo

O único livro de contos do enorme ficionista mexicano Juan Rulfo é o livro do mês de junho do Calhamaço, clube de assinatura feito por livreiro/as que eu já tinha indicado numa newsletter passada. Essa versão da José Olympio/Record é de 1970, cheia de revisões, adições e cortes propostos pelo autor. Ando lendo muito conto (por causa do curso que mencionei acima) e não cheguei nesse ainda, mas indico porque publiquei no meu Instagram e fiquei surpresa com a reação – nunca um livro fotografado no meu Stories teve tanto ~engajamento! Foram dezenas de mensagens de gente exaltando Rulfo e seu “Pedro Páramo”, incluindo gente cujo gosto respeito bastante. Além disso, o nome em espanhol é belíssimo: “El llano en llamas”.

newsletter(s) da semana: Writer’s Library do Substack

O Substack botou no ar ontem uma thread para usuários da plataforma compartilharem links e descrições de suas newsletters e indicarem quais são suas leituras preferidas. Se você lê em inglês e está procurando novas newsletters para assinar vale a pena perder meia horinha por lá. Tem newsletters sobre vinho, sobre economizar dinheiro, sobre “fazer sucesso no pós-pandemia” (amo) e sobre reatar laços afetivos destruídos por divergências políticas entre muitas, muitas outras coisas.


Vem aí: Paulicéia

Ainda o Substack: na terça passada a plataforma anunciou os ganhadores do Substack Local, uma iniciativa global de incentivo a projetos de jornalismo local em formato newsletter.

Fico muito feliz e orgulhosa de anunciar que sou uma das 12 pessoas selecionadas, junto com repórteres/editores da Nigéria, Romênia, Taiwan, Inglaterra, Austrália e EUA.

Minha nova newsletter será bissemanal, em português e vai tratar de diferentes aspectos da sobrevivência da cultura na cidade São Paulo durante e no pós-pandemia (se tiver pós-pandemia no Brasil). O nome é Paulicéia – lembrando que a “Paulicéia Desvairada” do Mário de Andrade faz 100 anos em 2022.

A primeira edição sai em junho, você já pode assinar -> https://pauliceia.substack.com/


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