tá todo mundo tentando: fazer as pazes com São Paulo

🎶 as luzes da cidade / não chegam nas estrelas / sem antes me buscar 🎶

Pra ouvir enquanto lê: “Lá vou eu”, da Rita Lee, que é minha música ~paulistana preferida (Spotify/Youtube)


Quando prefeita, Luiza Erundina batizou São Paulo de “cidade dos mil povos”. Lembro disso todos os dias quando passo pela Avenida Paulista e vejo a grande caixa de vidro espelhado no lugar onde esteve a mansão dos Matarazzo, que Erundina quis transformar em Museu do Trabalhador. Considerando que a Paulista há muito deixou de ser corredor financeiro para se tornar coração cultural da cidade, imagina que bom seria ter um museu popular, um museu dos mil povos encarando a FIESP? Não vingou, claro. Um dos melhores clichês sobre São Paulo é que essa é uma cidade sem memória.

A “minha” São Paulo é outro clichê paulistano: sou descendente de imigrantes que fugiram de seus lugares originais e chegaram no interior paulista. Não tenho romantismo com isso, já que não sei direito quem veio de onde. Sei que meus ancestrais foram pessoas não prósperas, porém livres. Minha melhor fonte de informação, além de fotos que talvez eu herde da minha tia, é um livro enorme chamado “A Historia da Imigração no Brasil”, de 1978, uma lista de famílias de várias partes do mundo que chegaram aqui no século 19. Por lá sei que tenho um tetravô vindo da Campânia, que casou com uma jovem vinda do Vêneto. Eles vieram com malas e família, se tornaram pequenos empresários e comerciantes, e em algumas gerações o sobrenome esqueceu a pobreza anterior. Talvez seja isso que meus avós quisessem: que eu, minha irmã e nossos primos valorizássemos as histórias que contavam, de revezar sapato pra ir para à escola. Hoje, gostaria de ter escutado muito mais.

Mas na época eu não queria, e meu jeito de revoltar foi descobrir quais eram as outras São Paulo, as cidades que minha família não mostrava. Com uns 13 anos descobri esse lado B varando noites no Espaço Retrô atrás da igreja da Santa Cecília — tinha que ficar até de manhã pra poder pegar o ônibus que subia a Amaral Gurgel e voltar pra casa. O Bixiga, os botecos da Roosevelt, os restaurantes populares da São João e uma convivência de rua com jovens que devem ter acabado em igrejas evangélicas, penitenciárias ou debaixo da terra antes dos 18 — ali eu construí minha ideia de São Paulo. Não foi em casa que aprendi a enxergar a injustiça e a diversidade da cidade. Talvez porque meus pais nunca falassem sobre isso comigo, preferindo me deixar flutuar ao redor das trupes de artistas-vanguardistas-paulistanos que frequentavam nossa casa.

Mais tarde, cumpri papel de jovem branca de classe média indo trabalhar em loja durante o dia e fazendo supletivo à noite. E de repente fiquei deslumbradíssima com outra coisa muito urbana e muito diversa: a música eletrônica noventista. As drogas, sim, claro, mas também a política all are welcome das pistas de dança majoritariamente gays das madrugadas de São Paulo entre o Centro e os Jardins, depois Penha e periferias. Por um momento muito breve, na virada dos 90 pros 00, tudo fez sentido. O futuro era brilhante. Eu sinto muitas saudades desse futuro.

Tive outras cidades, vividas por outras Gaías do passado. E tentei, mas continuo incapaz de romper com São Paulo. Estar há ano e meio sozinha em um apartamento perdido na cidade teve o efeito de me fazer começar a achar bonito o sol refletido no espelho do prédio do outro lado da rua. E tem me dado vontade de fazer as pazes com o meu lugar, ser alguém — como canta a Rita Lee 🎶 — tentando acreditar que as coisas vão melhorar.


📰 A sobrevivência das livrarias de rua durante a pandemia

A reportagem de capa da edição de junho do Suplemento Pernambuco traz livreiras e livreiros de várias cidades do Brasil contando o que aconteceu de março de 2020 pra cá.

☕ Coffee House newsletter

Você sente falta de trabalhar em um café, com sons de xícaras batendo e pessoas falando no fundo? A Coffee House resolve isso pra você. É uma newsletter super simples, sempre com um link de background sound com temática cafeteria, tipo um café em Bali ou um Starbucks na Coréia do Sul. Sons de chuva e natureza aparecem também.

🩸 Como você está menstruando?

Fiquei besta com a quantidade de comentários nesse tweet sobre os efeitos da pandemia nas pessoas que menstruam. O assunto começou há uns meses por aqui: meu ciclo, sempre tão regradinho, está uma bagunça. Sem contar as cólicas que aumentaram *demais* e a TPM que agora dura vinte dias. Falei disso com minha ginecologista e com minha psicóloga e as respostas foram as mesmas: não estou sozinha nisso. Um estudo da Universidade Federal de Lavras aponta que 97% (!) das mulheres relataram surgimento de novos sintomas relacionados à saúde mental, e 77% apresentam alterações em seus ciclos menstruais, que eram considerados normais antes da pandemia. A revista TPM conversou com médicas e ginecologistas que indicam que “não existe uma única resposta sobre o que está causando essa irregularidade menstrual na quarentena”. Os motivos, você pode imaginar, vão de depressão e ansiedade até mudanças na alimentação e falta de vitamina D.

responda nessa thread!


🩸🩸 Pobreza menstrual

Aproveitando o assunto: o governo de São Paulo anunciou essa semana um projeto para distribuir absorventes íntimos para população de baixa renda na rede pública escolar. A falta de acesso aos itens de higiene é responsável por faltas e e mal rendimento na escola e o combate à pobreza menstrual é tema de vários projetos, como o Fluxo Solidário. Se homens menstruassem a gente teria distribuição gratuita de absorvente em banheiro de rodoviária, claro.


💮 Ex-Libris do Projeto Zaire

Em fevereiro passado ganhei da espetacular Debora Lopes um dos presentes mais legais da minha vida: um carimbo ex-libris, nome para o desenho que identifica propriedade de um livro. Repeti depois o ato, encomendando um ex-libris personalizado para certa ~pessoa especial, e garanto que o presente é sucesso. Quem faz é o Projeto Zaire, que cria o desenho de acordo com suas especificações. Esse é o meu:

👉 Vem aí: Paulicéia

Minha nova newsletter estreia em junho. Será bissemanal, em português, falando da sobrevivência da cultura em São Paulo no pós-pandemia. O nome é Paulicéia e você já pode assinar.

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