Tá todo mundo tentando: voltar a fumar

Tá Todo Mundo Tentando é uma newsletter semanal com crônicas do mal-estar da vida em 2021 e, vá lá, umas dicas de coisas legais pra lembrar que nem tudo é desgraça. Essa é a primeira edição.


Pra ouvir enquanto lê: “Cigarettes After Sex”
(não a banda dos anos 2010, a canção de 1966 do Otis Redding)

É verdade que o tabagismo é indefensável. Mas também é verdade que vivemos tempos em que qualquer prazer, por menor que seja, é mais que bem-vindo: é quase obrigatório. E o cigarro é um prazer pra quem fuma — é assim que começa.

Foi me agarrando nisso que voltei aos cigarros após quase 17 anos longe deles. O flerte começou pré-pandemia, quando a montanha-russa chamada Brasil já tinha entrado no modo descida. Mas foi só depois de março de 2020 que ganhei uma desculpa de verdade, na contramão das correntes de wellness e selfcare do Instagram. “Vamos sair melhores dessa”, bom, fale por você.

Não demorei muito para adotar o hábito do cigarrinho diário, todo fim da tarde, olhando pela janela do apartamento na Bela Vista. Foi um passo importante na jornada de me tornar uma velha de voz rouca. E essa semana notei que agora fumo também após o almoço, contabilizando dois cigarros por dia. Se você perguntar se me arrependo, respondo na lata: tanto quando me arrependo das curtas doses de álcool que beberico junto com cigarro — ou seja, nem um pouco.

Já faz um ano e tanto que a vida é ficar em casa, obrigação moral de quem pode. Essa vida é pouco prazeirosa, mesmo para pessoas que ficam bem sozinhas. Por isso é urgente identificar os poucos prazeres caseiros rotineiros e agradecer por eles. Uma xícara de café recém moído, o calor da Jezebel no meu colo, boas notícias de pessoas queridas que também sobrevivem, almoço na mesa da cozinha, manter a casa limpa, enxugar o corpo com uma toalha fresca depois de tomar banho quente — alguns prazeres possíveis.

Escrever, também.

E fumar cigarro.

Não acordei um dia decidida, “taí, vou na padoca comprar cigarros”. Foi aos poucos, primeiro filando Marlboros de amigos, depois querendo compor uma boa cena para momentos de escrita – cigarro relaxa, preciso estar relaxada pra escrever, e que perfeito é o conjunto de maço de cigarro, isqueiro e o cinzeiro de vidro que foi da minha avó junto da máquina de escrever, em cima da mesa de madeira. Pelo menos a crise aqui não é estética.

Quando o cigarro começou a acompanhar cada fim de dia útil, o cenário já estava posto pro golpe final: um crush pandêmico, uma pessoa com quem compartilhar se não cigarros (o afeto em questão não fuma) pelo menos a ocasional sessão de cama, mesa, banho e ansiedade. É no pós-transa que o cigarro é justificado. Tem algo irresistível em estar esticada sem roupa (melhor: de camisa velha e calcinha nova) na cama (às vezes: sofá) e acender casualmente um cigarro fresco, substituindo o cheiro de suor pelo aroma de metal pesado. Parece até que vale a pena.

Há, claro, coisas que me incomodam. Não os conhecidos riscos do cigarro, ou os rótulos que os anunciam nos maços. Tampouco a falta de fôlego que começa a se mostrar nas teleaulas de yoga que faço na sala de casa três vezes por semana, pelas manhãs. É mais a falta de uma forma eficiente de fumar em casa. O cheiro de cigarro velho pairando em ambiente fechado me lembra acordar depois de festinha de arromba em boteco sórdido, mas não de um jeito bom. Então, quando fumo preciso abrir a janela, e o vento da avenida insiste em espalhar fragmentos de cinza pela sala. Essa sujeira do cigarro me faz torcer nariz, mas passo por cima, limpo as cinzas que ficam espalhadas por cima da mesinha e da poltrona onde gosto de sentar pra escrever, ignorando o barulho lá fora e espantando a culpa. Chegamos num lugar de absurdo tão dramático, em que sair de casa para ir na farmácia faz pensar se estaremos vivos na próxima quinzena, que o risco do cigarro vira uma coisa menor. Um risco banal.

Cigarro é, enfim, nostalgia de tempos menos ruins. Me leva de volta para uma época despreocupada. Minha geração (que podia fumar dentro de ônibus) tem uma ideia fixa de cigarro enquanto liberdade, memória afetiva de quem cresceu com muita propaganda de cigarro na mídia. O elán que acompanha o cigarro é difícil de superar. Quem sabe por ter visto filmes demais na vida, sou suscetível a essa coisa meio Lauren Bacall, de voz rouca e certo orgulho em não me importar, de saber beber bebida sem gelo, de tragar o cigarro pelo canto da boca com cara de durona enquanto o mundo desaba. Sinaliza que da porta pra dentro está tudo bem. Em 2021, o prazer de fumar vem de certo compromisso com saber viver o fim do mundo. De preferência repartindo com alguém. De preferência por cima de um lençol que precisa ser trocado.

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Playlist: xodó songs

Uma playlist de 2020. Contém musicas lindas. De nada.



Chegou aqui -> “Se Deus Me Chamar Não Vou” da Mariana Salomão Carrara

A Mariana me enviou em algum momento de 2020. É uma novela pra ler numa tarde só. É também tema da edição extra do clube de leitura Chicas e Dicas nesse domingo 18/04. Apesar de curto e francamente engraçado, é muito forte e emocionante ao contar a história de uma menina de 11 anos lidando com questões com as quais, aposto, você vai se identificar. Pelo menos um pouco. À venda no site da editora.

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Estou lendo -> “O Espelho e a Luz” da Hilary Mantel

Passei um ano obcecada pela trilogia Wolff Hall, obra prima da talentosa Hilary Mantel, que narra a vida do plebeu Thomas Cromwell na corte de Henrique 8o. É ficção histórica: uma história real (Cromwell é um dos mais interessantes personagens da história da Inglaterra) contada com elementos de ficção. Excelente ficção, nesse caso – Mantel tem a capacidade de te manter colado até a última página das duas mil páginas de uma saga que você já sabe como acaba. E saber como acaba não vai diminuir em nada a emoção de chegar até o final. Em tempos como os nossos, foi um prazer escapar para os cenários da corte Tudor, e mais ainda conversar em uma live especial com o editor da Todavia, André Conti, e com a reporter e tradutora Marina Della Valle, especialista em Hilary Mantel, sobre o poder dessa obra. E dá-lhe veludo! Todos os três volumes estão a venda no site da editora Todavia.

Newsletter -> Espiral, da Lalai Person

A primeira vez em que ouvi falar de Substack foi pela Lalai. Nada surpreendente, uma vez que na pré-história das redes sociais a Lalai já era a pessoa que estava em qualquer rede antes de ser modinha. A Espiral é semanal e traz o olhar afiado dela para dicas culturais, vida em Berlim, amor, viagens, comida e o que mais pintar. Pense nela como um ótimo filtro de coisas legais que estão sempre flutuando por aí.

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No streaming: especial OSCAR no MUBI Br

Desde criança mantenho uma relação afetiva com a maior premiação do cinema gringo. Provável culpa da minha mãe, que nunca me impediu de ver nada. Pelo contrário, incentivava as sessões de bons filmes de Bertolucci, Kubrick e Hitchcock mesmo que ela não estivesse na sala. Com dez anos de idade, eu podia andar sozinha até o videoclube (quem é 40+ vai reconhecer) e alugar o que quisesse. Também nessa idade ficava acordada para ver a premiação até o final, sempre acompanhada de uma edição da Set e um balde de pipoca. Acho que as premiações em geral perderam muito em charme e sobram em previsibilidade — mas e daí? Agora a gente tem o Twitter pra acompanhar, e troco qualquer aglomeração por uma noite no fumódromo da internet! Pra quem também sofre de nostalgia cinéfila, o Mubi está com uma seleção de grandes (enormes) filmes que foram indicados em categorias diversas, como “Precious” (2009), “A Grande Beleza” (2013), “Buena Vista Social Club” (1999), “Hiroshima Mon Amour” (1959), “Malcom X” (1993) e o espetacular filme russo de 1972 “The Dawns Here Are Quiet” (poster abaixo). Uma assinatura do MUBI custa R$29,90 (não ganho nada pra divulgar isso), vai na fé.

me manda uma dica pra próxima edição