Tá todo mundo tentando: ler mais

A leitura num lugar de não-exaustão.

Pra ouvir enquanto lê: “Killing an Arab”, The Cure em 1979 inspirado por “O Estrangeiro”. Um salve pra quem também quis ler Camus por causa do pós-punk. Spotify/Youtube.


Outro dia uma amiga pediu ajuda para “ler mais”. Não está sozinha no pedido. Quando ensaiei uma coluna (natimorta) com o tema “livros e como lê-los” no site onde trabalhava, o retorno de amigos contando que não conseguem se concentrar na leitura foi imediato e enorme.

Como ler mais? Não existe fórmula, aplicativo, técnica ou reza brava que desperte a concentração e “faça ler”, assim, sem esforço. Leitura é um hábito, e você perdeu esse hábito porque a vida aconteceu e em algum momento parou de dar importância para leitura. Não se resolve magicamente uma quase-vontade de voltar a ler, mas dá para perguntar: por que você acha que tem “problema” para se concentrar em livros e não tem esse “problema” para consumir redes sociais? Quem respondeu “porque ficar scrollando o Instagram dá menos trabalho”, está no caminho certo. Ler exige mesmo algum esforço, começando por escolher a leitura — às vezes não basta ler, é preciso garantir a performance e mostrar a leitura para o mundo, guardar os biscoitos no potinho da caça por aprovação externa. E uma vez escolhida a leitura, bom, aí tem aquela parte de se concentrar numa atividade que é essencialmente solitária.

Outra resposta chata para a questão “como ler mais” é parecida com a resposta para escrever mais, fazer exercícios físicos ou praticar meditação: é preciso fazer. Também odeio isso, mas é real: pare de achar desculpas, vá lá e faça e pare de reclamar.

Mas existe ainda uma outra resposta, e essa é mais gentil: quando a leitura concorre com a insanidade galopante do noticiário e o alívio instantâneo do entretenimento internético-televisivo, é preciso ter paixão pela coisa. É necessária uma preferência honesta pelo livro no lugar de outras coisas, de forma que o momento de ler não seja uma batalha pela concentração, mas uma horinha e prazer, aprendizado, desligue ou escapismo.

Para ler mais, veja só, é preciso gostar de ler.

Eu gosto. Sou leitora constante desde criança, como minha irmã. Nossa casa era de leitores de ficção variada, nada altamente sofisticado mas tudo sempre acessível e bom: de revista MAD ao clássico duvidoso “Carmilla” (novelinha gótica do irlandês Sheridan Le Fanu, li umas vinte vezes), de Jorge Amado a Sallinger. Minha mãe me presenteou com Herman Hesse e Zadie Smith, meu pai ficou entusiasmado quando me viu na cozinha com aquela antiga edição de capa verde de “Cem Anos de Solidão” e quis desenhar a árvore genealógica dos Buendia. Eles incentivaram até quando entrei numa espiral de obsessão com Tolkien (li a Trilogia do Anel três vezes… seguidas).

Mas mais importante foi a imagem constante da minha mãe e do meu avô (que amava os cronistas brasileiros, herdei seus volumes de Sabino, Fonseca e Braga) verdadeiramente cativados por suas leituras nas tardes de domingo depois de almoçar, ou nas noites antes de dormir. Essa leitura cotidiana e tranquila me fez entender o livro como lugar de conforto. Sigo confiando nesse conforto, que me é absolutamente necessário tendo em vista o mundo de 2021.

Como ler mais? Comece escolhendo algo que te desperte interesse honesto, seja putaria ou filosofia, quem sabe uma mistura marota dos dois. Abra o livro, deite os olhos e vá lá: uma palavra após a outra, uma linha de cada vez. Quando você ver já foi um parágrafo, depois uma página inteira, aí vira e toca para próxima. Se distrair ou parar de entender é normal e até esperado, não é privilégio exclusivo seu. Quando isso acontecer não se culpe, segure o ímpeto de olhar o celular e volte umas linhas ou parágrafos (me perco centenas de vezes por livro e não raro volto páginas inteiras!) e recomece. Uma coisa muito boa da leitura, como pensamentos impróprios, é que ela acontece só dentro da nossa cabeça e, descontados os desafios do goodreads, não é competição. Ninguém vai saber se você reler oito vezes a mesma página. É você com você. Ler não é uma atividade gregária. Talvez por isso leia mais/melhor quem não tem problema em ficar sozinho.

Leia para satisfazer sua vontade. Sem desejo não há leitura possível.

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PS: O hype dos clubes de livros me faz pensar que as pessoas querem ler, sim, mas querem ajuda de filtros não-algorítmicos. É um movimento do mercado editorial, porque o formato de clube de livro que estamos vendo é principalmente uma forma de editoras se relacionarem com o o público, e de livrarias valorizarem seus curadores. E tudo bem. Mas também existem clubes de livros feitos por/para leitores, no formato tradicional de propor uma leitura que será discutida depois, como o Clube de Literatura Brasileira e o Calhamaço.


Para comer: pão da Pain

Lembra quando todo mundo tava fazendo pão loucamente em 2020? Ah, que tempos. Bom, a (minha amiga pessoal!) Patty Ventura transformou isso em negócio. Primeiro porque ela já vinha fazendo pães há um tempo, segundo porque aproveitou a oportunidade real de vender bons pães pra quem cansou de tentar fazer o seu. As fornadas assadas em forno caseiro no Bixiga, centro de São Paulo, saem toda semana a partir de pedidos feitos no WhatsApp. Além dos pães redondinhos, de farinha branca ou integral (meu preferido é o de azeitona) tem foccacia e um bolo de cacau feito com levain no lugar de fermento químico que é *uma coisa*, em especial numa manhã de domingo, esquentado de leve na torradeira, acompanhando café e um livro. Encomendas devem ser feitas no começo da semana, com entregas entre quinta e sexta-feira.

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Para ouvir: Põe na Estante

Um “clube do livro em formato podcast”, o Põe na Estante é apresentado pela querida Gabriela Mayer, da BandNews FM, e traz toda semana uma conversa sobre obras de ficção. A temporada atual, terceira, é sobre clássicos, e ajuda a dar uma desmistificada na leitura de algumas obras como algo “difícíl”.

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Para participar: Lendo Livres

É um clube de leitura para pessoas LGBTQIA+ fundado pelo Bruno Frika, e que chegou até aqui numa dica do colega Fábio Allves. Tem formato clássico de clube de livro: o grupo escolhe o que vai ler e depois rola uma conversa, sempre online, sobre a obra e tema. Dá pra participar a partir do grupo no Facebook. O livro de maio é a brilhante HQ autobiográfica “Fun Home”, da Alisson Bechdel.


Para ler: Contra Amazon

É uma seleção de ensaios curtos assinados pelo argentino Jorge Carrión, com colaborações de escritores e livreiros, todos firmes na nobre intenção de valorizar as editoras e livrarias. Não é missão fácil, uma vez que nós somos muito profundamente apegados ao hábito de supervalorizar nosso papel de consumidor/a em detrimento de tudo o mais. A mudança por aqui foi imediata: há vários meses não compro livros na Amazon, que atualmente uso só como wishlist de livros que depois encomendo em outros lugares, principalmente na minha livraria do bairro, que inclusive aceita pagamento via pix, entrega em casa e muitas vezes tem preços menores que os da Amazon (sry!)

ps: o podcast Papo Tatuí dessa semana tem uma conversa ótima do Tadeu Breda, fundador da Elefante, sobre o que ele chama de “a eficiência egoísta da Amazon”.


Caixa de comentários -> e você?

Eu leio todos os emails que vocês enviam. Todos. 100%. Não deixo passar nem um. Mas às vezes não respondo porque nem sei o que/como responder. Não ache ruim comigo se você escreveu e não recebeu resposta, só saiba que o recado chegou.

Na tentativa de ter o que responder, fica aqui pra caixinha de comentários da semana: o que você está lendo?

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