Tá todo mundo tentando: voltar

Conforme prometido.

Para ouvir lendo: “To Be Alone With You” do Sufjan (Spotify/Youtube)


Eu acordei e você ainda estava aqui. Nunca tinha acontecido. Muita gente passou nessa cama, ninguém dormiu aqui. Nem você, que mesmo quando teve o convite não aceitou e que eu, na minha missão de manter as coisas adultas de um jeito leve e distante mesmo quando a distâcia machuca, nunca repeti. Aí que ontem, sem fazer planos, você ficou. Me trouxe pra perto do seu corpo rosnando um ‘gostosa’ baixinho no meu ouvido, que não entendi se era vontade de começar de novo ou só um elogio sonolento. Pelo sim, pelo não, me deixei abraçar. Você me beijou sem ligar pro mau hálito, levantou, vestiu a samba canção azul amassada e disse que ia fazer café. Eu fiquei deitada, observando e esperando vir da cozinha algum pedido de ajuda, onde está o moedor, onde ficam as xícaras, onde tem filtro. Nesses meses a gente transou em todos os ambientes do meu apartamento, comeu pizza no chão da sala, matou pote de sorvete sentados na cama, mas café a gente nunca fez. Ao invés do pedido de ajuda, veio você sem camisa segurando uma xícara em cada mão e confirmando que eu tomo sem açúcar.

Meu coração parou um pouquinho e eu quis te pedir pra ir embora logo, adiantando o que você fazia sempre e largando ali os cafés. Mas não. Você deitou do meu lado, me chamou pro seu peito e tomou cafẽ sem olhar o celular, os dois num silêncio raro e confortável. Nossas manias de querer ficar só foram desmanchando enquanto a cafeína fazia efeito, e você não tinha como saber, mas enquanto estava na sala vestindo calça e colocando tênis eu estava chorando no banheiro e passando água fria no rosto para disfarçar. Na porta da frente, o selinho de despedida antes de colocar máscara, aquela cheirada no pescoço pra tentar guardar um pouco da noite, e antes de entrar no elevador você falou que na próxima trazia o bluray o livro ou sei lá o que te emprestei. Eu suspirei que sim, tudo bem, próxima vez, é, a gente vê, não tem pressa, mas depois que passei pra dentro e fechei a porta, meus joelhos falharam e eu sentei no chão.

Talvez parte dessa sensação de que pode dar certo mais um pouco é que, apesar desse tempo todo, eu ainda não sei o suficiente sobre quem você é e o que você passou e onde você estava. Eu só sei que ficou estava disponível e veio como esse fogo em mato seco. Era livre e funcionava. No passado, porque agora chegamos num lugar em que já plantamos o que tínhamos pra plantar.

Levantei do chão ao ouvir o toque do celular, sabendo que é você por que é assim que você faz: uma mensagem apenas, sucinto Uma figurinha de whatsapp, uma música, alguma safadeza. Normalmente sorrio quando é você, mais por achar divertido do que por sentir alguma emoção, mas dessa vez meu estômago afunda, minha garganta aperta, meus braços começam a formigar.

Olho pela janela pra confirmar você nem chegou a sair pelo portão na direção da avenida. Prendo o cabelo e te espero com a porta aberta. Como sempre, entre o elevador e meu corpo você não leva nem dois segundos. Mas ao invés de tirar máscara, passar álcool na mão e me encostar na parede para o beijo de sempre, você me abraça. Demorou muito para chegar aqui. Mas agora, meu amor, agora é hora de colher.

Essa semana no Paulicéia…

A partir do dia 20/10 as edições de quarta e sexta-feira do boletim Paulicéia (você sabe, minha outra newsletter) serão exclusivas dos assinantes que apoiam financeiramente o projeto.

A proposta do Paulicéia sempre foi criar um híbrido de conteúdo gratuito com conteúdo pago, tanto que ofereço planos de assinatura desde o lançamento. Agora, após alguns meses de experimentações de formato, chegou a hora de fazer essa transição.

Será assim: as entrevistas de segunda (com os retratos do Ale Ruaro!) seguirão gratuitas; os conteúdos enviados às quartas (sempre um aprofundamento do assunto de segunda) e às sextas (dicas de roteiro cultural em São Paulo) serão enviados apenas para quem apoia em alguma modalidade paga, com um valor inicial de R$15.

assine e apoie o Paulicéia


Também ofereço planos gratuitos para jovens que estudem ou trabalhem na área da cultura na cidade e podem de alguma forma se beneficiar do conteúdo das newsletters – se for o seu caso, me manda um email!

Lembra que na última edição, aquela há três semanas, eu contei que ia dar um tempinho? Dei um tempinho, mas voltei. A quantidade de trabalho não diminuiu e não consegui “descansar”, mas pelo menos consegui dar uma re-organizada nas ideias e isso já é muita coisa. Daqui pra frente, vou pensar a TTMT em temporadas. A S01 foi entre 16/04 ("voltar a fumar") e 24/09 (“silenciar notificações"), com 24 episódios, incluindo uma ficção, um crosspost com a _flows e um aviso do Paulicéia. Folgo em dizer que não furei nem uma vez. Faço a mesma promessa para a S02, essa que começa hoje e vai até meio de abril de 2023 (se é que vai ter Brasil até lá). Nesse tempo pretendo publicar algumas coisas ficcionais, como a edição de hoje, que são trechos de coisas que ando tirando do arquivo do Scrivener. Seguimos assim. Comentários e emails de incentivo são sempre bem-vindos.