Aug 26 • 7M

Tá todo mundo tentando: um dia, um gato

Uma historinha em quatro partes no Centro de São Paulo.

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Gaía Passarelli
Uma newsletter sobre o mal-estar da vida na São Paulo dos anos 2020 | por Gaía Passarelli -> http://gaiapassarelli.substack.com
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Para ler ouvindo: "All flowers in time bends towards the sun" do Jeff Buckley com a Liz Frazer. É uma gravação nunca terminada. Sempre que ouço penso que existe um mundo em que o Jeff Buckley não se afogou num rio no Mississipi e ele e a Liz gravaram um disco lindo e solar. Eu sou essa pessoa.

Um dia, um gato. Pt 1.

No começo, era só uma coisinha se mexendo entre o lixo. Na altura dos pés das pessoas passando rápido pelas calçadas da Avenida São Luiz, no meio de uma manhã fria de sábado, veio um miado. Um miado agudo e alto, miado de bicho querendo chamar a atenção, que chegou no ouvido de Lara.

“Não. Não, não, não. Agora, não. Não dá. Eu tenho coisas pra fazer. Agora não dá,” pensou e passou reto, parando em seguida e voltando alguns passos para tentar ouvir de novo.

A idéia de ter um gato no apartamento vazio não era de todo ruim. Talvez a ideia até já pairasse como uma nuvenzinha por cima da cabeça de Lara, pelo menos desde o dia em que tinha escutado sons que podiam, ou não, ser ratos se mexendo por dentro das paredes do apartamento — prédio muito velho tem dessas coisas. O prédio dela, ali no final da Rua da Consolação, em cima das locadoras de carro, era grande demais pra cuidar e viver sozinha, mas a situação era essa e não ia mudar tão cedo. Um filhote de gato podia ser uma companhia. As desculpas se acumularam rapidamente dentro da cabeça enquanto Lara ajoelhava na calçada para olhar dentro do canteiro de lixo. O miado parou. Ela se afastou um pouco. Ele recomeçou. Quando viu os olhos amarelos e afoitos brilhando meio das sacolas plásticas, ela não teve dúvidas: os planos do fim de semana tinham mudado.

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Era um gatinho daqueles dos mais vira-latas que têm, um frajola magricela e com pêlo ralo. O bichinho se acostumou com o apartamento sem nenhum esforço e desde o primeiro dia andava pelos espaços vazios como se fosse dono do pedaço. Na primeira noite, aquele pedacinho de bicho, uma coisinha mirrada que cabia numa mão, já tinha definido seu pedaço na cama.

Para Lara, o gatinho era a coisa mais legal desde a invenção da luz elétrica. Um pontinho cheio de energia quicando no chão atrás de bolinhas de papel, atacando os pés embaixo do lençol ou deitado do seu lado no sofá quando a tela do computador estava aberta. Batizou de Luca, assim curtinho, para combinar com o seu nome.

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O apartamento enorme tinha espaço suficiente para Luca gastar sua energia de filhote. Andava atrás de Lara sempre que não estava dormindo. Escalava as pernas dela enquanto sua leveza de pequeno felino permitia. Dormia enrolado na barriga na hora de deitar, mexendo as orelhas quando a dona fazia algum barulho.

Lara sabia apenas que Luca tinha vindo dos gatos de rua que viviam nas calçadas durante a noite, parte do cenário do Centro. Donos de restaurante até gostam deles, porque ajudam a espantar os ratos, e por isso dão as sobras de comida no final do expediente, o que faz com que os gatos se habituem a frequentar as saídas de serviço escondidas nos becos atrás das avenidas. Não havia outras crias ou uma ninhada por perto na manhã em que ele apareceu miando debaixo dos sacos de lixo. O bichinho estava sozinho.

Foi sorte, porque nem era para Lara estar passando por ali aquele dia — ela ia descer até a casa de uma amiga no Arouche pra pegar um casaco que tinha deixado na semana anterior, esticar as pernas, quem sabe parar para tomar um café. E ali, na avenida, junto com o lixo esperando ser recolhido, estava o filhote.

“Muita sorte mesmo,” concordou o veterinário, porque Luca nem era um gatinho saudável. Magro demais, com dentes pouco desenvolvidos, provavelmente tinha mamado pouco e se alimentado menos ainda. Teve um começo de vida difícil, mas a criaturinha tinha de alguma forma sobrevivido tempo suficiente para ver a vida mudar.

No primeiro dia, o veterinário 24h do Copan cuidou de Luca enquanto Lara fazia suas compras de recém dona de gato. Uma caminha macia, uma porção de remédios, alguns brinquedos recheados de erva de gato, a ração indicada pelo veterinário, uma fonte de água, caixa plástica e pacotes de areia.

“Evite leite, vai dar diarreia. Dê essa fórmula misturada em água, três vezes por dia. Talvez te atrapalhe no trabalho, mas vai evitar que o gatinho cresça doente.”

“Não tem problema, eu estou trabalhando de casa por uns tempos, posso cuidar o tempo todo.”

“Bom pra ele. Não deixe a comida no pote, pode atrair ratos, e cuide para que tenha água fresca o tempo todo.”

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Luca foi dando alguma cor para o que até então era uma vida bastante cinzenta. Lara tinha mudado para o apartamento para morar com amigos, mas um ano inteiro de azar, brigas, desemprego e protestos de rua com jeito batalha campal entre estudantes e Policia Militar nas ruas, fizeram com que ninguém ficasse. Quem queria morar no Centro agora era ou rico o suficiente para comprar apartamento próprio ou pobre demais para escolher naquele prédio especifico, um exemplo decadente do Centro de São Paulo, com hall de mármore e porteiro uniformizado, apartamentos enormes com varandas envidraçadas que as pessoas decoravam com plantas e peças de arte. O apartamento era herança de família, e Lara pagava condomínio e contas do mês. Depois de ver um roommate após outro ir embora, acabou desistindo e achando que fazendo uma força para pegar mais fretas e trabalhar de casa, estava bem assim. Tinha a TV onde podia conectar o computador para ver filme, tinha um aparelho de som vagabundo, tinha uma cama com colchão manchado mas macio. Tinha quase nenhum móvel, o que dava para o apartamento uma aparência de lugar desabitado. Comprava quadros que achava em bazares de usados e coloca em fileira no chão, como que parar marcar os locais onde um dia ia pendura-los, mas depois que Luca chegou e passou a brincar de esconder atrás eles, achou que estava bom assim. Além do mais, não vinha visita nenhuma nunca e não via razão pra decorar. Ficavam então Lara e Luca dentro de um universo íntimo feito de quadros no chão e de ver filmes, comer comida de delivery ou ouvir música esticados no tapete da sala.

Eles até combinavam. O preto meio falho da pelagem de Luca era parecido com o cabelo escuro de Lara. Eram ambos pequenos, com um jeito meio subnutrido. Luca precisava de alguém que cuidasse dele, pelo menos até crescer. Lara precisava de alguém para cuidar. No começo foi assim, dentro de casa, ignorando a São Paulo turbulenta lá fora.

Tiago Lacerda/@elcerdo

ps: esse é um texto em série e continua na semana que vem.

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O Guia Paulicéia dessa semana traz uma seleção de onze coisas para ver e fazer na 8a Jornada do Patrimônio, que acontece em São Paulo nesse fim de semana. Esse é um conteúdo extra só para apoiadores da TTMT, e você pode assinar aqui para ler a edição da semana e ter acesso a todo o arquivo já publicado.

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🏠 Bons ventos: mais mulheres investindo no mercado imobiliário

Esse post é um oferecimento da Refúgios Urbanos, uma imobiliária feito por (e para!) amantes da arquitetura #publi

Em um cenário tradicionalmente masculino, o mercado imobiliário vem se transformando com a chegada de mais mulheres. É um indicativo dos nossos dados: as mulheres têm buscado investir nesse mercado que é sólido e está em crescimento. Em 2022, 70% das compras e aquisições da Refúgios Urbanos foram feitas por mulheres — individualmente ou em sociedade. Segundo Ana Shaida, uma das sócias da Refúgios (que tem o time composto por 67% de mulheres!), "as mulheres tendem a serem mais detalhistas, pesquisar e ponderar mais, além de equilibrar a lógica com a sensibilidade nas decisões," o que resulta em compras menos impulsivas e com mais acertos. 

Conheça abaixo cinco imóveis selecionados por duas corretoras (apaixonadas por arquitetura!) da Refúgios Urbanos:

Reformado perto do Parque Ibirapuera

Apartamento todo reformado em predinho charmoso dos anos 1970, com dois quartos, pertinho do Parque Ibirapuera. Mais informações no site da Refúgios Urbanos.

Apartamento na copa das árvores na Vila Mariana

Moderno e espaçoso, em uma região deliciosa da Vila Mariana, apartamento de 139m2 na altura da copa das árvores com muita luz natural. Mais informações no site Refúgios Urbanos.

Casa reformada, com quintal, na melhor parte do Ipiranga

Casa de 197m2 com dois quartos, suíte e closet, acabou de passar por uma reforma incrível, localizada na melhor parte do Ipiranga. Mais informações no site Refúgios Urbanos.

Apartamento com varanda na Aclimação

Apartamento incrível com 81m2 e sala integrada com varanda, no bairro da Aclimação. Mais informações no site Refúgios Urbanos.

Charmoso e espaçoso perto do Parque da Aclimação

Mais de 100mt2 com cozinha gostosa, living e dois quartos, perto do Parque da Aclimação. Mais informações no site Refúgios Urbanos.

📚 estou lendo (com convidada!)

Importante: os links abaixo são para vendas dos livros em livrarias independentes, para os sites das próprias editoras e/ou dos autores. Eu não ganho nada caso uma venda seja realizada através desses links — mas as livrarias, as editoras e os autores, sim ;)

Oi, eu sou a Jessica Correa e publico semanalmente a newsletter Entre Um Chocolatinho e Outro, com reflexões do cotidiano e várias dicas de livros (e outras coisas). A convite da minha amiga Gaía, indico quatro livros que são muito importantes pra mim (e que também são bem rapidinhos de ler!). Se quiserem conversar: sou @jesticacorrea em todas as redes!

Cartas a um jovem poeta - Rainer Maria Rilke

Gosto muito de livros que parecem que vão falar de uma coisa e quando você percebe, já estão refletindo sobre a existência, paciência, virtudes e solidão. Rainer Maria Rilke foi um romancista e poeta austríaco, um homem intenso, discreto e muito benevolente com outros artistas. Neste livro, a gente tem uma troca de cartas entre ele e um jovem poeta chamado Franz Xaver Kappus — mas Franz abre espaço só para as cartas recebidas. É um daqueles livros que é bem legal ler um pouquinho por dia antes de dormir, para fazer pensar e desligar das distrações externas. 

Do que eu falo quando falo de corrida - Haruki Murakami

Haruki Murakami é uma ótima porta de entrada para quem quer começar a ler literatura japonesa. Aqui, ele conta sobre a decisão de vender seu bar de jazz e se dedicar à escrita, e enquanto isso, começa a correr para entrar em forma. O que eu mais gosto desse livro é a visão do autor sobre sua maior paixão, a escrita, e como ele sente que precisa estar com a cabeça e com o corpo saudável. Uma coisa não existe sem a outra, e nós, muitas vezes, negligenciamos cuidar do corpo por acreditar que isso seja puramente estético. Foi depois desse livro que eu criei uma relação mais saudável e funcional com o exercício físico. Obrigada, Murakami!

Só garotos - Patti Smith

Além de letrista, cantora, roqueira, escritora, mulher foda e muitas outras coisas, eu gosto de pensar na Patti Smith como a melhor memorista que já li. Em "Só garotos'', ela conta como foi chegar em Nova Iorque no finalzinho dos anos 1960, a contracultura local onde ela melhor se encaixou e também no seu relacionamento amoroso com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem esse livro foi escrito em homenagem. Aqui, a gente começa a entender melhor as referências da artista que refletem na escrita e na música. Eu acredito que essa é a biografia/carta de amor mais bonita que já li na vida, e sempre indico com os olhos fechados.

Só as partes engraçadas - Nell Scovell

Nell Scovell deu vida a roteiros de Os Simpsons, sketchs de Saturday Night Live, Late Night with David Letterman e também foi a criadora da super famosa série "Sabrina, aprendiz de feiticeira". Nesse livro ela fala de abuso de poder em ambiente de trabalho, colegas difíceis e como é ser mulher em uma das indústrias mais machistas que existem. Também explica seu processo criativo de várias peças importantes do audiovisual com muito humor e sagacidade. Fiquei muito fã!

💡  FLIMA

Depois de dois anos rolando apenas online, em 2022 a Festa Literária Internacional da Mantiqueira, volta ao modelo presencial. A FLIMA, em quinta edição, começou ontem (quinta) e vai até domingo em Santo Antonio do Pinhal, a duas horas de SP, e tem o tema “decolonialidade” e Conceição Evaristo como autora homenageada. Todas as 120 atrações da FLIMA, como workshops e debates, são de graça e estão concentradas no centrinho da cidade, que também recebe uma feira de livros com a presença de mais de setenta editoras. Programação completa no post abaixo.

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