tá todo mundo tentando: tomar vacina

Desconfiando do azul pega-trouxa do céu de inverno em São Paulo.

🎶 para ouvir enquanto lê: a lindíssima “Gostar de quem”, do Bemti porque sou muito sensível à violão caipira e letras bonitas (Spotify/Youtube) * tem mais sobre ele aí embaixo, continua a ler.


Essa foi a primeira semana, desde que comecei esse boletim, em que considerei dar um perdido e esquecer o envio. Isso porque mandei dois boletins da Paulicéia e minha cabeça desacostumada ao trabalho achou que já estava bom. E também porque fiquei sofrendo com efeitos da vacina da Astrazeneca.

Tomei minha primeira dose dentro do cronograma etário do VacinaSampa. Fiz uma publicação no Instagram, claro, porque se não colocar foto do postinho de saúde com hashtag exaltando o SUS a vacina não faz efeito. Depois de vacinada, mandei a foto para as pessoas que importam: filho, melhor amiga, dengo, mãe, irmã, o grupo preferido do zap. Recebi de volta reações exultantes, mensagens de parabéns, emoção. Entendo. Eu mesma fiquei muito feliz nos últimos meses com as imagens dos parentes e amigos mais velhos, com comorbidades ou em outros países, mostrando a carteirinha de vacinação. E fiquei profundamente emocionada, mexida mesmo, com as primeiras notícias das vacinas lá no começo desse ano. Lembra daquele vídeo de janeiro em que os cientistas do Butantã comemoravam resultados de testes da vacina Coronavac? Eu chorei com o celular na mão, na frente da minha mesa de trabalho.

Dias mais tarde passei horas colada na TV vendo o vacinashow do João Dória com a primeira pessoa vacinada do Brasil. Chorei de soluçar, num grau em que não conseguia nem falar direito.

Mas não tive a mesma catarse emocional na última terça-feira. Talvez porque esteja muito frio, talvez porque o número de óbitos tenha aumentado tanto de janeiro pra cá que é difícil celebrar alguma coisa. Fiquei pessoalmente feliz, é claro. Acordei, tomei café e saí de casa cedo abrigada no meu casaco de pelúcia de onça. Nem me importei com esperar mais de uma hora na fila. Passou suave, numa energia de cumprir meu dever cívico. Fui sozinha, não pedi pra ninguém tirar foto porque não queria atrapalhar o trabalho da profissional de saúde e nem atrasar o pessoal que estava esperando na garoa que começava a engrossar. Fiz minha selfie mediana, agradeci e fui pra casa pensando em escrever. Não consegui. Me distraí com o almoço, com o livro que estou lendo e fiz o que faço melhor, que é dar voltas tentando enrolar o tempo. Por volta das cinco da tarde assumi que estava sim entrando para a estatística da Ressaca da Vacina.

Nem todo mundo tem efeito colateral de vacina. Quem vacinou filhos pequenos deve lembrar bem das reações que qualquer vacina pode causar: diarréias, vômito, febre, dores. Pode acontecer, ou não. Mas você não deixa de vacinar uma criança contra a poliomielite por causa de um ou dois dias com febre. É parte do processo. E às vezes nem tem reação – amigas da mesma faixa etária que a minha, que tomaram a mesma vacina na mesma data e não relataram drama algum. É uma questão de resposta do sistema imunológico individual.

A vacinação é um processo coletivo, e esse esforço começa a mostrar efeitos positivos agora – muito tarde.

Tô escrevendo no final de uma semana em que a geração 1975-79, a minha geração, foi vacinada em São Paulo. É bom demais ver os amigos e amigas celebrando chegaremos vivos até aqui. Ao mesmo tempo, é trágico lembrar que mais de meio milhão não tiveram essa sorte. Só vou me sentir segura para celebrar qualquer coisa quando meu filho e eu sobrinho estiverem vacinados. Tem muito chão até lá. Enquanto isso, sigo desconfiando do pedacinho de azul atrás daquele cinza todo do céu. Pode ser o azul pega-trouxa do inverno paulistano.

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Paulicéia

Anunciei em tudo quanto é canto mas repito aqui caso você tenha perdido: nasceu Paulicéia, meu boletim sobre cultura em São Paulo com apoio do Substack Local. A edição de estréia traz a dupla Oz Guarani falando sobre rap e luta indígena. Na próxima: o que o afroturismo tem a ensinar para São Paulo.

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#PL490Não: agosto indígena

O STF adiou para agosto a votação do Projeto de Lei 490, que prevê marco temporal para demarcação de terras indígenas em todo território brasileiro. O projeto é considerado inconstitucional por juristas e coloca em risco a sobrevivência dos povos originários.

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Bemti

Se você me seguiu no Twitter nos últimos anos deve ter me visto em algum momento exaltando o talento do Bemti, um dos melhores artistas brasileiros dos últimos anos. Prestei atenção no Bemti lá em 2017 ou 2018, acho, alguém no Twitter disse que o som era uma mistura de “Perfume Genius com viola caipira” — a definição é perfeita, mas ao longo do tempo ganhou também um tanto de textura sonora meio épica meio Arcade Fire circa “Reflektor” só que abertamente queer. No Spotify você encontra grandes momentos do Bemti em parcerias com Johnny Rooker e Jaloo. Fique com “Samba!”, single lançado esse ano que adianta sonoridade do disco novo que vem aí.

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Os Diários de Emilio Renzi

Publicado em três partes, que podem ser lidas individualmente, os relatos de Ricardo Piglia partem de centenas de cadernos escritos ao longo da vida pelo escritor argentino. O resultado é uma observação profunda da transição da juventude para a maturidade, com todos seus altos e baixos. Saiu pela Todavia.


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