Tá todo mundo tentando: ter um diário

Frustrações, paranóias e algumas vitórias aqui e ali.

🎶 para ouvir lendo: “True Love Tales”, do ótimo “Joined Up Writing”, da Anne Clark – pirei muito nela quando descobri esse disco já nos anos 1990. O não-cantar, as batidas secas, as letras filosófico-confessionais, tudo isso falou muito alto no coraçãozinho da Gaía adolescente. (Spotify/Youtube)

Não lembro o momento exato em que comecei a escrever minha vida em cadernos. Sei que foi na infância: ganhei um daqueles caderninhos com cadeado e chave, acho que rosa e de capa dura. A intenção era escrever os acontecimentos do dia, segredos que meninas de oito anos carregam. Peguei o hábito. Lembro de na adolescência escrever em um caderno velho comprado em brechó, em caderno basicão de papelaria de bairro, em agendas não usadas de anos passados. Esses não sobreviveram: um dia botei fogo em tudo que achava que me fazia mal, incluindo cartas, fotos e, sim, também os diários de uma vida que não queria reconhecer como minha.

Anos depois, quis imitar a protagonista da ”Casa dos espíritos” da Isabel Allende e decidi concentrar a escrita em grandes “cadernos de contar a vida”. Mas isso foi depois que fui mãe, motivada pelo desejo de registrar o que eu já sabia que eram meus melhores anos, a felicidade de ver meu filho pequeno, de morar numa casa fora de São Paulo. Esses cadernos sobreviveram e ainda estão comigo numa caixa de madeira mas também foram oscilantes. Não é como se na época eu tivesse tempo para escrever todos os dias, tampouco sabia exatamente o que queria escrever. Nunca reli, e acho nem vou reler, nada do que escrevi nessa época ou em qualquer outra. Pra quê? A verdade é que só escrevo direito quando estou vivendo algum drama, a felicidade não me inspira.

Tenho o hábito de escrever para sangrar. Sei que quase tudo que escrevi nas sei lá quantas mil páginas guardadas na caixa de madeira são dramas repetidos: falta de dinheiro, crise profissional, paranoia pura e simples, coração partido, frustrações. Mas também algumas vitórias pontuais.


Mais tarde, os cadernos de escrever a vida se tornaram cadernos de viagem. Desses sim eu gosto: temas definidos, registros do que cruzava meu caminho. Escrevia tudo que eu não queria perder, dicas de coisas para fazer, paisagens que via pela janela do trem, personagens que encontrei e que teria esquecido não fosse o saudável hábito de escrever. Escrever todos os dias, mesmo cansada, mesmo na estrada. São esses cadernos que depois se tornaram o MVVS e o finado blog de viagens que tive até 2019.

O objeto caderno se tornou hábito, sempre junto com uma caneta na bolsa ou em cima da mesa, companhia de cafés e almoços – sempre gostei de almoçar sozinha com um caderno, um livro, ou os dois. Nesses cadernos cotidianos rabisquei de tudo: desabafos, lembretes, acontecimentos mais ou menos marcantes, listas de coisas para fazer, ideias de pautas, rascunhos de reportagens em evolução, anotações de trabalhos. São cadernos inconstantes, sem padrão algum, intercalando arroubos produtivos e semanas de silêncio. Sempre chamei de diários.

Meus diários me deram duas coisas: a descoberta de certo jeito para a crônica e o hábito, esse que é o aliado mais importante de quem escreve.


Esse hábito, que começou quando eu era uma criança quieta em Ribeiro Pires, passou pela adolescente que ouvia punk rock, pela quase adulta obcecada por música e festas, pela jovem mãe tentando escrever a vida em uma casa de vidro no meio do mato, pela viajante que pegou trem em Kanyakumari e descobriu que nunca seria o Paul Theroux, ficou. E precisou passar por esses momentos da mesma vida até encontrar o tempo necessário, a voz, um formato, um jeito confortável de fazer a coisa. Isso foi agora.

No começo da pandemia, em março do ano passado, assumi o compromisso pessoal de ter diários. Mas diário mesmo, de verdade: escrever todos os dias, mesmo quando não tem nada acontecendo, mesmo sem sair de casa. Pareceu importante registrar a vida, como se isso desse sentido ao absurdo que vivemos. Passei a escrever sempre com a mesma caneta, num caderno do mesmo tipo, em contraste com os cadernos do passado que são diversos e caóticos. De novo ele, o hábito. É (mais um) jeito de tentar botar ordem.

Quase tudo que vocês leem aqui e no Medium, bom ou ruim, saiu desses cadernos de 2017 pra cá. Quase sempre sei quando um texto no diário irá para o teclado. E sempre sei como os textos começam: existe em mim essa inspiração súbita que é sempre de abertura. Mas nunca sei como acaba, pra onde vai, se é que vai pra algum lugar.

Na vida também: às vezes não vai pra lugar nenhum, por melhor que seja o começo.


📓 Diários de escritores


Não posso dizer que gosto de ler diários. Leio muito relato de viagem (nota mental: falar sobre isso aqui no futuro aqui no TTMT) mas, mesmo que esses relatos venham carregados de notas pessoais, diário é outra coisa. Diário é rotina. Um diário é uma janela da personalidade, dos pensamentos e do desenvolvimento de quem escreve. Por isso, é uma abertura importante para quem estuda e/ou se identifica muito com a obra de determinado/a autor/a.

A bem da verdade, gostei demais de ler “Os diários de Emilio Renzi”, do Ricardi Piglia, que a Todavia publicou no Brasil. As entradas cronológicas, cheias de comentários sucintos sobre vida afetiva, questões de família, situação política e as relações com diferentes grupos de amigos e colegas, são recortadas por comentários sobre criar e consumir literatura.

Há muito mais: os diários da Virginia Woolf, do Kafka, Sylvia Plath, Camus, Anais Nin, Dostoievski, Katherine Mansfield, Saramago e vários outros foram publicados, normalmente póstumos mas com autorização do autor. O caso do Kafka (que também saiu em português pela Todavia) é mais complexo e dá uma sensação de estar lendo algo que não deveria ser lido. Eu gosto.

Esse post da Cândido, revista literária da Biblioteca Pública do Paraná, traz vários desses e outros diários, incluindo criações ficcionais como os diários de Adão e Eva escritos pelo Mark Twain. E dando uma pesquisada superficial sobre o assunto pra escrever aqui, acabei caindo no “Diários de escritores” da Myriam Ávila. Comprei agorinha e ainda não li, comento depois (se gostar, claro).


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O assunto da semana no Paulicéia foi turismo em São Paulo, a partir da entrevista de um guia profissional que oferece tours de arte e design para gringos ricos que visitam a cidade. Foi a edição mais lida/compartilhada até agora. Parece que as pessoas também gostaram de receber as dicas de coisas maneiras para fazer na cidade (ou em casa).

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