Tá todo mundo tentando: ter uma mesa de trabalho

Herdei do meu avô algumas coisas, mas a mais vistosa é uma mesa de madeira.

Pra ouvir enquanto lê: “Shine It”, do Medeski, Martin and Wood, um som gostosinho pra acordar. Spotify/Youtube.


A mesa onde eu trabalho é a mesma onde o meu avô trabalhava. Ele a encomendou como peça do escritório no apartamento para onde mudou com minha avó nos anos 1980. Era um escritório com cara de pai, com estantes cheias de livros e carpete xadrez. A mesa ocupava o centro e meu avô se sentava ali, fazendo nunca entendi bem o quê. Eu sabia que se ele estivesse ao telefone era sinal para não incomodar e às vezes ficava por perto, lurking, porque gostava de o ouvir falar, muito taurino que era: carismático e sério, espirituoso e assertivo. Sempre que falava ao telefone meu avô deixava rabiscos em folhas grandes de papel: números, somas, multiplicações, porcentagens, muitos zeros e vírgulas.

Não herdei do meu avô o talento com contas. Números são pra mim entidades misteriosas, e ainda na infância aceitei que o funcionamento deles não era para minha compreensão. No geral, a minha experiência na escola era como no desenho do Snoopy.

Cerca de um ano e meio depois que meu avô morreu, quando desmanchamos o apartamento, eu quis ficar com a mesa mesmo sem ter lugar para coloca-la. Ninguém questionou, pelo contrário: um amigo da família, porque amigo é pra essas coisas, se ofereceu para buscar e guardar alguns móveis pra mim e pra minha irmã, pelo tempo que fosse preciso. Não precisou muito. Em poucos meses saí do apartamento escuro e triste onde passei os piores anos da minha vida e me mudei pra outro, com janelas grandes, aquecedor a gás e sinteco no piso. O mais importante: com um quarto extra espaçoso suficiente para fazer um escritório. Meu primeiro escritório em casa, com as estantes, com os livros, com a mesa.

A mesa não é especialmente bonita. É uma mesa de madeira clara, lixada e muito sólida, com pés torcidos pra cima e pernas bojudas. Tem uma beleza tradicional, uma beleza de coisa que se herdou do avô, e isso, sim, é das coisas mais bonitas que têm. A mesa tem cinco gavetas grandes onde meu avô guardava papéis, canetas, clipes e álbuns com fotos das netas, do neto, de eventos familiares como jantar de Natal ou almoços de domingo. Nessas gavetas, que hoje são minhas, tenho fotos da infância, dos meus avós, do meu filho quando era pequeno. E também canetas coloridas, post-its, carimbos, blocos de papel, cabos USB velhos, tomadas, paninhos de limpar celular, pelo menos dois fones quebrados e afins.

O tampo é de vidro grosso e tem desenhos de uma artista pernambucana, herança do tempo em que a mesa foi protagonista de um episódio de programa de decoração. Nesse programa a mesa foi reformada e ganhou “tatuagens”, pinturas na madeira, que depois removi sabendo que era o que meu avô gostaria que eu fizesse, como se fosse possível remover as minhas tatuagens das quais ele nunca gostou

Desde então mudei de casa algumas vezes. Quatro apartamentos em seis anos, sempre com a mesa de trabalho, as estantes e os livros me obrigando a encontrar metragens além das minhas possibilidades. Dos apartamentos onde morei em São Paulo esse que ocupo hoje é o que gosto mais. Talvez porque o cômodo onde montei o escritório é bom, é amplo, recebe luz natural, tem tomadas em lugares adequados e paredes suficientes para minhas estantes e meus livros.

Aqui a mesa ficou do jeito que entrou: no centro, de costas para uma parede e de frente para a porta.

Ps: minha mesa tem uma foto do Hemingway, de quem admiro a disciplina, e um bilhete em que rabisquei pra mim mesma um conselho da Cheryl Strayed: “the thing about moving up is that you have to keep on climbing, the thing about moving on is that you have to keep going” (em tradução muito solta: “o importante sobre subir é que você precisa continuar escalando, o importante sobre avançar é que você precisa seguir em frente”, não mentiu).


Para focar: Noisli 🚂

Um amigo apresentou há anos e apaixonei: o Noisli é um site de ambiência sonora com interface super simples e uma coleção de sons adoráveis como chuva ou fogueira, que você pode misturar e deixar de fundo para ajudar a concentração. Dá pra ouvir mixes pré-definidos com temas como “produtividade” e “relaxamento”, e assinantes destravam dezenas de opções tipo bolhas e máquina de lavar-roupa, além de uma opção de timer com 25 minutos de duração. Se você é dessas, dá para colocar o som de café e se sentir ocupando uma mesa no Starbucks. Meu preferido é o barulho de trem.

Para ouvir: Projeto Brekkie ☕

É playlist que vocês querem? Então tá. Criei essa para o Projeto Brekkie, podcast sobre café da manhã (melhor tema!) do Guilherme Zauith. Aproveita pra ouvir o episódio com a minha entrevista onde falo porque o melhor café da manhã do mundo é o do Amazonas. Depois ouve a playlist.

Para ler: Mariana Enriquez 💀

Acabei de ler o bonito “As coisas que perdemos no fogo”, livro de contos de horror da argentina Mariana Enriquez, que tem seu novo “Nossa parte da noite” como livro do mês do clube da Intrínseca em maio. Ando interessada na ideia de “gótico feminino”, ou um “gótico latino”.A autora não se fecha em rótulos afins, mas fala longamente sobre o sobrenatural, o obsessivo, a ditadura argentina e as peculiaridades da região de Corrientes como parte de sua obra, em longa entrevista para o Suplemento Pernambuco de maio e em reportagem da Folha de São Paulo dessa semana.

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A pandemia afetou a forma como nos relacionamos com trabalho. De “nômades digitais” que precisaram passar um período longo de estagnação à trabalhadores de comércio e serviços que seguiram encarando transporte público diário, dá pra dizer que ninguém passou (está passando) impune. Há até, quem diria, situações de trabalho que melhoraram de 2020 pra cá, como empresas de comunicação e tecnologia que passaram a investir no espaço de seus funcionários ao invés de investir em escritórios enormes e custosos, enviando, por exemplo, cadeiras adequadas e suportes para notebook, em alguns casos até pagando a internet extra das pessoas (que é o certo). Pessoalmente, me senti pouco afetada – passei muitos anos trabalhando como freelancer e há tempos tenho organização suficiente para separar vida-trabalho dentro do espaço-rotina. Sei que é um lugar de privilégio, a começar pela mesa que mencionei no texto. E por aí, como é?

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