Tá todo mundo tentando: tempo de poda

A motivação inevitável de voltar a crescer

🎶 para ouvir lendo: “Tua boca”, do Itamar Assumpção, um dos principais nomes da vanguarda paulista dos anos 1980, que será homenageado com estátua em São Paulo \o/ (Spotify/Youtube)

Share


A única parte boa de envelhecer é que a gente cresce. Para crescer bem é preciso podar, deitar fora o que não serve mais.

Podar significa aparar arestas, cortar o que é excesso, botar fora as partes que não servem mais, que consomem nutrientes e atrapalham o crescimento. Parece um passo para trás – olha lá, a árvore tão tão grande e alta, como se pode cortar os galhos? Acontece que vem chuva, vem vento, e a árvore alta demais, com braços finos demais, com raízes rasas demais, não se sustenta. Ela cai, ela quebra, ela leva um tempão para crescer de novo. Às vezes nem cresce, morre antes. Então, a poda. E depois da poda, toda a madeira cortada e folhas secas podem voltar para a terra e adubar futuras árvores. Ou alimentar fogueiras.

Há uns dias, uma equipe da prefeitura apareceu podando as árvores da minha rua. Quando vejo alguém cortando árvore em São Paulo sou tomada de uma agonia: a expectativa é ver a árvore transformada em toco morto. Nesse caso, não. O moço subiu na árvore preso por um equipamento de segurança, usando capacete e segurando uma serra comprida, algo como um cabo longo com uma Makita na ponta. Sentou numa junção segura de tronco e galho e dirigiu a serra com os dois braços na direção dos braços que precisavam sair antes de, sei lá, cair na cabeça de alguém.

Não sei porque o serviço veio agora. Desconfio de que foi porque no começo da semana uma ventania derrubou uma porção de galhos na rua, bloqueando passagem dos ônibus e carros. Vento do oeste, segundo minha mãe, contando que na cidade dela os antigos dizem que significa mudança de tempo. Na cidade da minha irmã, que é perto, além de ventar também choveu granizo. Aqui na Paulista bateu só uma bem-vinda garoa. De noite veio a cerração deixando opaca a vista das antenas. Aí o dia virou. E as árvores podadas têm agora a motivação inevitável de voltar a crescer.


📥 Paulicéia

A Gaía de treze anos literalmente guardava jornal velho: recortes ou páginas inteiras de coisas que eu via e gostava, e todas as colunas Noite Ilustrada, onde eu sonhava em aparecer (e apareci mais de uma vez, obrigada Erika!). Filmes no cinema ou na TV, livros, shows, álbuns que chegavam da gringa até o Brasil: antes da internet essas coisas a gente ficava sabendo em revistas e jornais, e a Ilustrada era um meio do caminho entre os dois. Mais que isso: contava o que estava acontecendo em São Paulo.

O boletim Paulicéia dessa quarta veio em formato diferente, lembrando que esse é um projeto em desenvolvimento constante. Abro com uma crônica, sigo com dicas/comentários sobre coisas que estão acontecendo em SP. Como sempre, comentários são bem-vindos.

Paulicéia
[Paulicéia 016] Ilustrada, o principal caderno de cultura de São Paulo
Em 2018, a Ilustrada, caderno de cultura da Folha de São Paulo, fez 60 anos. Quase todas as suas fases foram registradas em dois bons documentos da própria Folha: o livro "Pós-Tudo, 50 Anos de Cultura na Ilustrada", lançado em 2018, e o especial "Ilustrada, 60 anos", publicado pelo jornal em 2018…
Read more

Chegou aqui: “O homem da forca”, Shirley Jackson

Chegou aqui há uns dias e peguei pra ler atraída pelo “blurb” da Dorothy Parker, que chamou a Shirley Jackson de “mestra na arte da escrita envolvente”. Fiquei *apaixonada* pelo livro, deixando de ler mesmo só para trabalhar e dormir — é isso que ocupa a maior parte do meu tempo. “O homem da forca” é a história de Natalie, uma adolescente nos EUA que sai da casa dos pais para viver no campus da faculdade com outras garotas. Desde o começo você é pega pela nem sempre sutil confusão entre o que Natalie vive, o que inventa, o que escreve. A troca dela com o pai escritor, literato e controlador é um dos pontos altos. E aviso, você vai ter vontade de fumar cigarros e beber martinis (no plural). E de sublinhar várias das ótimas frases, também.

Não compre na *m*z*n, compre no site da Dois Pontos.


🤑 Tip jar

A “Tá todo mundo tentando” é gratuita. Se você gosta do que escrevo aqui e quer incentivar 💰 agradeço demais. Você pode usar o Ko-Fi, ou minha chave Pix, que é gaia.passarelli@gmail.com. Só não esqueça de me avisar aqui no email, assim posso te agradecer diretamente.


⭐ Chegou agora?

Leia essas também:

🗝️ Tá todo mundo tentando: chegar em casa

✍️ Tá todo mundo tentando: ter um diário

🏚️ Tá todo mundo tentando: gerenciar o declínio


📚 Faz tempo que a gente não se fala, né?


Para a caixa de comentários de hoje: você já podou uma árvore?

NÃO! brinks!

Me conta o que você está lendo (ou planejando ler).