May 13 • 5M

Tá todo mundo tentando: mudar

11 mudanças em 22 anos — não recomendo, mas levo na boa

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Uma newsletter sobre o mal-estar da vida na São Paulo dos anos 2020 | por Gaía Passarelli -> http://gaiapassarelli.substack.com
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🎧 Para ouvir lendo: “Damages Goods” do Gang of Four (Tidal/Youtube)

Tô sentada na mesinha azul da cozinha e percebi que por mais que nesses dois anos ela tenha sido uma mesinha muito usada, eu nunca sentei aqui para fazer o que estou fazendo agora: beber um vinho e escrever. Pra isso, usei bem mais a mesa grande da sala, de madeira, com quatro lugares que podem ser seis ou oito dependendo do dia. Quando mudei pra esse apartamento, esperava usar muito a mesona da sala em jantares e almoços para grandes ou pequenas turmas. Não aconteceu porque, bom tinha uma pandemia no meio do caminho. Mas usei bastante as duas, o suficiente para criar boas memórias — almoços de aniversário, cafés da manhã com o meu filho, vinhos e petiscos com amigas, sessões de drinks com a turma do antigo trabalho. A mesona da sala também foi meu posto para sessões online de terapia e para reuniões de trabalho que precisavam de um fundo mais bonito. E, claro, foi cenário de muitos cafés comigo mesma, espalhando caderno, máquina de escrever e computador entre xícaras usadas, às vezes um cinzeiro, às vezes uma taça esquecida.

Tô falando da mesa pq tô tomada pela melancolia da mudança, revendo memórias enquanto me preparo para sair desse apartamento, que adoro, e abrindo mão das lembranças que não tive tempo de criar. Mas mudar de casa, pra mim, por mais que seja um trabalho enorme, não é um problema. O apartamento novo será minha 11º morada desde o ano 2000. Sim, são onze casas em 22 anos, eu contei na mão. Nesse tempo, morei numa réplica da Casa de Vidro da Lina Bo Bardi e morei num quarto e sala debaixo de um casal que brigava aos berros o tempo todo. Morei num apartamento que dava de fundos para os dutos de ar condicionado de um hospital. Morei numa casa com quintal gramado e um limoeiro na frente da janela da cozinha. Também morei numa casa sombria e abafada onde fazia tanto calor que meu filho passava mal. Tirei quase tudo de letra, atravessando fases melhores ou piores que sempre tiveram mais a ver com meus dramas afetivos e profissionais do que com os locais e construções.

E se por um lado minhas muitas mudanças não me ensinaram a parar de acumular (são mais de mil livros, e sigo contando) por outro me tornou uma pessoa confortável com essa coisa de trocar de pele — talvez seja o Sol em Peixes, adaptável, mas é bom lembrar que tenho muitos planetas em Áries, o astral dos começos destemidos.

De fato, não tenho problemas com recomeçar. A vida vem e é preciso saber quando é hora de pegar a dita pelos chifres e quando é hora de se deixar levar pelo vagalhão.

Esse recomeço de agora tá sendo mais leve que outros. Primeiro que me desfiz de muita coisa nos três anos estacionada aqui . E segundo que estou realmente feliz de mudar, diminuir, cortar custos, dar tchau pra persona ‘escritora que mora na Paulista’ — mas sem rancor, sem cuspir no prato em que comi. Eu amo a Paulista e já sinto saudades de andar por ela todos os dias, de ver a antena dourada da Gazeta todas as noites, de comer hambúrguer no Jotinha, de estar a uma linha de ônibus de praticamente qualquer lugar, de acompanhar a rotina e as mudanças desses 3,5km que são, pra mim, o coração da cidade. Mas mudar é bom e hoje me dei uma hora andando e circulando pelo bairro novo, querendo fazer amizade com o cenário, puxando assunto com o jornaleiro, explorando a padaria da esquina. Encontrei um empório português com comidas congeladas e vinhos baratinhos, uma casa árabe de doces e salgados e uma rotisserie que vende frango assado nos finais de semana — importante, porque o frango assado de televisão aos domingos é minha refeição paulistana preferida! E também fiz amizade com a Maria. Professora aposentada que há dois meses dirige táxi pelo bairro, meio que para completar a renda meio que para espantar o tédio. Ela me contou sobre o trânsito, as pessoas e os comércios da área, e me deu boas vindas.

Quando nos despedimos, ela me pediu pra repetir meu nome – “Gaía“, falei, “é só lembrar que meu nome rima com o seu“.

🗣️ Obrigada por ler, sharing is caring e até sexta que vem.

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📚 #Chegouaqui

Importante: não são necessariamente livros que eu li, mas que recebi e que merece recomendação. A TTMT pode ganhar uma pequena porcentagem da venda caso a compra seja efetuada através desses links. Os livros também estão disponíveis em formato Kindle.

Vale da Estranheza - Anna Wierner

Os blurbs da Rebecca Solnit e da Jia Tolentino na capa seriam suficientes para me fazer pegar esse livro nas mãos em uma livraria. Mas tem mais. Anna Wierner escreve sobre o Vale do Sicílio para a New Yorker e é uma atenta observadora das mudanças culturais impostas pela tecnologia no comportamento humano. O livro começa com a autora se mudando de Nova Iorque para a Califórnia e segue tanto as mudanças na sua relação com as start-ups quanto dessas empresas com o mundo ao seu redor – em resumo, como a internet deixou de ser uma promessa de conhecimento e liberdade para se tornar empresas de vigilância respondendo aos interesses privados de alguns poucos controladores globalmente influentes. 💸 Compre aqui

Degenerado - Ariana Harwicz

Um monólogo. O narrador é um idoso acusado de um crime hediondo, que leva o leitor através de um labirinto de impressões, sensações e digavações, “um homem um homem que, diante de uma sociedade que nos pede para sermos alguém, devolve a ela o pior do que é capaz.” Para além ao argumento instigante, o livro vem em bonita edição da Instante, dessas que dá gosto de ter na mão. 💸 Compre aqui

Pássaros na Boca e Sete Casas Vazias - Samanta Schweblin

Reunião de dois volumes de contos da autora argentina, que conversa com a tradição fantástica latino-americana. Na seleção, histórias sombrias que flertam tanto com o horror quanto com a vida aparentemente banal das cidades pequenas. 💸 Compre aqui

e você, tá lendo o quê?

🎙️ Sobre newsletters

Está chegando ao fim o o meu Ano Em Que Vivi de Newsletter e estou repartindo alguns aprendizados desse período em que fiquei totalmente imersa no Substack — já falei em agência de PR e publicidade e se você quiser saber mais sobre isso pode falar comigo por aqui mesmo (é só responder esse email que chega em mim). Essa palestrinha abaixo foi aberta, a convite da Rede de Jornalistas Internacionais, falando sobre newsletters com foco em jornalismo e, claro, sobre monetização, a pergunta de um milhão de dólares que todo mundo quer aprender a responder. Dá para ver abaixo, e também dá pra ler um resumo no site. Eu devo em breve montar uma aula de newsletter com foco em conteúdo autoral, se você tiver interesse me deixa um salve nos comentários.

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Falei um pouco sobre criação, números e estratégia do Guia Paulicéia e da Tá Todo Mundo Tentando, na News das News, “a newsletter sobre newsletters”.

Dá pra ler aqui e vale também explorar o Gstack, uma alternativa canarinha (logo: totalmente em português!) com as mesmas funcionalidades do Substack.

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