Tá todo mundo tentando: o inevitável

a gente acostuma com qualquer coisa

🎶 para ouvir enquanto lê: “Você fez merda”, bolerão da genial Liniker. (Spotify/Youtube)


É preciso que você saiba que eu passei na frente do seu prédio novo e muito rapidamente tentei olhar pela sua janela para tentar ouvir o vazio que você ouve.

Fingi estar andando ao acaso, guiando minha amiga pelas ruas após tomar brunch num café caro e gastar dinheiro numa loja de livros. Descemos da avenida, passamos por debaixo de viadutos, desviamos de desabrigados e do lixo nas calçadas. Na esquina, ela casualmente aponta para um prédio com grandes janelas e pergunta, distraída :  "é esse?". Ela sabe onde estou indo, não se importa. Eu digo que não, que você mora um pouco mais para cima. Andamos mais uma quadra, paramos para esperar o semáforo e eu aponto : "é aquele". 

É feio mesmo, ela confirma. Era pra ser engraçado, mas não dou risada. Me conformo lembrando que a gente se acostuma com qualquer coisa. Com excesso de luz ou de sombra. O que mata é o barulho.

Na fase horrorosa que tive entre 2017–2018, morei em um apartamento que dava para os fundos do Hospital Nove de Julho e sua enorme parede de aparelhos de ar-condicionado que vibravam um HMMMMMMMMMM ensurdecedor vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Foi quando estive mais perto de enlouquecer. O barulho constante minou minha criatividade, meu sono, minha saúde mental. Eu tinha ganas de ir até os apartamentos vizinhos perguntar para as pessoas se elas não estavam pirando com aquilo, que não é possível que em 22 andares, 44 apartamentos, 3 quartos em cada, todo mundo convivesse normalmente com um barulho que não pára. Nunca o fiz, porque em partes de São Paulo o normal é não falar com os vizinhos e de qualquer forma, como disse, a gente que se acostuma com tudo. Mas eu não acostumei. Me mudei menos de um ano depois para um apartamento virado para a rua. Ali os barulhos eram das ambulâncias do hospital, dos grupos de funcionários em pausa para o cigarro, do sem-teto do bairro que passava gritando de madrugada, das turmas de jovens descendo pro Baixo Augusta entre quinta e domingo. Esses barulhos iam e vinham, são sons da cidade. Acostumei. Só quando saí daquele prédio pra outro, no mesmo bairro porém equipado com janelas à prova de som, é que a vida começou a melhorar sutilmente, como se os ruídos de todos os dias pudessem determinar acontecimentos bons ou ruins e como se a geolocalização tivesse influência nessa subjetividade que é viver bem.

Olhando de fora, agora atravessando a faixa de pedestres, não consigo achar que esse prédio vá trazer nada de bom pra quem more nele. Se eu pudesse, te tirava daí na força. Mas te levar pra onde, fazer o quê? Você é um adulto, como eu, e na nossa idade a gente sabe o que faz. Se não sabe, deveria. Ademais, tá todo mundo tentando. E tenho certeza que pra você nada é fixo. É mais uma fase que logo você abandona sem se importar com a sujeira que deixa no caminho. No meu caminho. Mas eu não carrego. A culpa, a sujeira são suas. O prédio feio é seu.

A calçada afunila e dou uma última torcida de pescoço na direção da fachada suja. Mais tarde, eu e minha amiga vamos rir de nossas vidas afetivas horríveis. Lá pelo quarto martini, vou confessar que carrego um lugar de loucura onde continuo suscetível. E ela vai responder que sabe, e que tudo bem. Mas o que ela não sabe é que somos capazes de nos reconhecer, que uma pessoa muito machucada enxerga a outra, que isso cria um vínculo e que esse vínculo fica mesmo quando estamos nos mexendo para sair dos nossos lugares ruins.

Mais tarde ainda, na calçada estreita entre uma banca de jornal e um boteco, um homem baixo com óculos me olha diretamente e diz “oi, tudo bem?”, ao que eu respondo sem pensar “tudo bem, e você?”. Continuo andando depois de travar contato visual. Dura uma fração de segundo e de imediato achei que era você, olha que absurdo. Os olhos pretos e muito brilhantes pareciam os seus. Mas o ato de falar comigo tão diretamente assim na rua indicavam que não, não era você. Jamais seria. Na última vez que te vi você escolheu cruzar os braços e não me olhar nos olhos.

Continuo caminhando em frente, presa na conversa com a minha amiga. Quando pergunto se ela conhecia esse cara ela responde “que cara, doida?”. Se eu tentar explicar que de vez em quando falo com gente que não existe, ou que na minha vida em São Paulo existem transeuntes momentaneamente imbuídos da missão de me dar um recado, ela vai achar que sou maluca. Mas você entenderia. Você até gostaria de ouvir.

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📥 Paulicéia

O papo dessa semana no Paulicéia foi bem especial. Primeiro porque a Pina (nome afetivo pra Pinacoteca do Estado) é o museu mais querido da cidade, lar de exposições disputadas. Segundo porque o diretor da instituição, o alemão Jochen Volz, é uma das pessoas mais gentis que o jornalismo já me apresentou. Na primeira parte da entrevista ele fala sobre as decisões tomadas para migrar a Pina do físico para o digital durante a pandemia e adianta algo da programação de 2022. Na segunda parte o assunto é a mostra OSGEMEOS: Segredos, em cartaz até o dia nove de agosto.


🎙️ 60 songs that explains the 90s

O título é autoexplicativo: um podcast com sessenta episódios, cada um contanto a história e o impacto cultural de uma música dos anos 1990. Eu sei que os anos 90 já é muito ~ontem e que os zoomer agora tão mirando os anos 00. Mas esse episódio sobre “Vogue” da Madonna tem tudo que eu procuro numa reportagem musical: o bom, (é uma tremenda musica!), o mau (Madonna sendo Madonna e apropriando uma cultura da qual não vazia parte) e o contexto (filme do Dick Tracy, “Truth or Dare”, ballroom culture, mil coisas). Se você entende inglês, esse é um podcast para maratonar:


📕 “Lugar nenhum: um atlas de países que deixaram de existir”

Lançado agora pela Rua do Sabão, lista a história de cinquenta países que existiram/deixaram de existir entre 1840 e 1975, como Shetland do Sul (nas Malvinas argentinas), Zona Internacional de Tânger (noroeste do Marrocos) e Manchukuo (extremo leste da Ásia.) Apesar do tema curioso, as histórias selecionadas pelo autor Bjorn Berge são, invariavelmente, sobre os males do colonianismo, guerra e desolação. O título da página abaixo dá o clima:


🍲 para pedir: Curi

Eu divulgo meus amigos, sim! Desde o começo da pandemia a comida do Curi (nome tupi da araucária) salva meus almoços aqui em casa. O cardápio muda a cada estação, sempre com ótimas opções veganas e coloridas, em embalagens que podem ir pro congelador. Agora no inverno tem muitas sopas, incluindo uma *maravilhosa* de grão de bico (a “sopa indiana”, essa abaixo). Apenas em São Paulo (sry!). Vai na fé:

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🔖 Galeria Metrópole

Muito boa essa thread recente do colega Renan Guerra sobre a Galeria Metrópole. Lembrou a São Paulo que já foi e que será de novo. Leia/siga:


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