Tá todo mundo tentando: imaginar o final

newsletter semanal com crônicas do mal-estar da vida em 2021. essa é a terceira edição e fala sobre livros, se apaixonar na pandemia e músicas para ouvir escrevendo.

Pra ouvir enquanto lê: “Here’s Where the Story Ends” do The Sundays

Ando acompanhando o início do retorno das pessoas ao convívio social. Isso nos EUA, que há não muito era o campeão mundial em óbitos por covid e agora tem humanos com menos de 30 anos massivamente vacinados. A vida reaparece em newsletters, arrobas do Twitter /Instagram, contas do Medium, e em podcasts onde as pessoas registram seu retorno gradual do mundo. Imagina: em Israel ninguém mais usa máscara. Já é pós-pandemia na Austrália. Portugal está reabrindo. Sou toda ansiedade e inveja, queria poder temperar com algum substantivo positivo, tipo esperança, mas moro no Brasil em 2021 e por aqui a esperança tem sido distribuída em conta gotas.

Mas o tempo, ele passa.

O podcast The Cut, que traz pessoas narrando acontecimentos e reviravoltas pessoais, soltou essa semana um episódio em que a produtora Jazmín Aguilera narra suas reações ao mundo pós-vacina. “Senti a mudança ao tomar a picada, quase que fisicamente. Saí da clínica e o mundo parecia vivo outra vez”. Ela mesma se lembra de voltar pra Terra, que não é bem assim, que o mundo continua pandêmico, que é essencial continuar usando máscara, que a vacina é só um primeiro passo para fora do nevoeiro. Mas o que descreve é uma sensação que todos nós estamos querendo — olha só, aquilo ali no fundo é um tantinho de esperança? manda um pouco pra mim?

E qual é a primeira grande vontade da Jazmín depois de vacinada e segura? Transar, é claro. “Quero beijar desconhecidos”, ela começa, “quero ficar bêbada em público, estou pronta para sair na rua, sou como um animal selvagem que vai sair do zoológico e voltar para a natureza.”

Jazmín está sonhando com o promete ser um catártico e quente verão em Nova Iorque, mas não é isso que acontece de imediato. Numa decisão totalmente impulsiva e compreensível, nossa intrépida correspondente do mundo livre decide pegar um avião para a outra costa do país e encontrar Brock, o boy que conheceu durante uma série de festas de Zoom e com quem tem conversado ao longo do último ano. Jazmín voa de Nova Iorque até San Diego para conhecer Brock ao vivo e a cores e, como a internet é uma coisa muito doida, nós acompanhamos o encontro deles no aeroporto, sabemos as fofices que falaram ao acordarem juntos na primeira manhã, testemunhamos um glorioso ataque de riso numa viagem de cogumelo assistindo “Godzilla vs Kong”. E se você também é uma pessoa emotiva, tá ok chorar na despedida, com barulhos de beijinhos (argh!) quando Brock pede que Jazmín fique mais um pouco.

Por que eu tô te contando isso? Pra lembrar que seja lá qual for sua expectativa de um retorno hipotético ao normal, é certo dizer que não será como você está esperando. Talvez a sua vida pós-pandemia seja uma vida sem olfato, talvez seja sem algumas das pessoas que você tem hoje, talvez seja em outra cidade. Talvez você se torne uma dessas pessoas que ficaram tão confortáveis com o isolamento que nunca mais vai sair de casa. Talvez você não tenha mudado nada. Talvez tenha tido filhos e precise ensinar o mundo pós-pandêmico enquanto aprende como ele funciona. Talvez você tenha ficado sem emprego ou mudado de carreira. Talvez você tenha parado de beber ou voltado a fumar, talvez tenha ficado viciado em remédio pra dormir, talvez tenha desenvolvido um novo hábito saudável, tipo meditação.

Talvez, como a Jazmín, você tenha planos de se jogar num mundo de noites selvagens, um novo momento de excesso, hedonismo e decadência de fazer inveja aos anos 1920. E aí, no meio do caminho, se vê apaixonada (ou quase apaixonada, mas é que esse “quase” não faz diferença) pelo Brock e o plano passa a ser outra coisa, uma coisa meio nublada e indefinida, que tem a ver com a sensação de liberdade dessa reabertura, com um mundo renovado cheio do desejo de não pensar muito. E ainda assim carregado de dúvida: como será? Ninguém sabe. Nem precisa saber.

Citando a Jazmín: “essa é o único resultado positivo da pandemia: saber que se algo não der certo, tudo bem.” Ou, melhor: “foda-se, vamos comer cogumelos”.

Porque o tempo, ele passa rápido demais.

A imagem acima é de uma thread no Twitter com capas pós-pandemia inventadas para New Yorker por estudantes de artes visuais dos EUA. Achei na newsletter do Charlie Warzel (BuzzFeed News, NYT), que começa essa edição contando que estava escrevendo da beira de uma piscina durante uma viagem com a família. Ah, a inveja.

Ps: sempre há alguma esperança e a minha veio essa semana na forma da minha mãe e minha tia devidamente vacinadas. Minha irmã, que trabalha com educação, recebe vacina em breve. Obrigada, SUS!

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para ouvir -> Flow State

Acho difícil escrever (ou ler) enquanto ouço música, inclusive instrumental. Como no dia a dia é preciso fazer escolhas, e as palavras acabam ganhando, ouço bem menos música do que ouvia há, sei lá, uns doze anos. Também significa que estou sempre atrás de coisas que possam ser trilha sonora para escrever, e como você pode imaginar, as playlists de “focus” do Spotify não são exatamente estimulantes (mas vivo caindo nas playlists de chorinho, chorinho é bom demais). Daí que o Substack outro dia recomendou o Flow State, uma newsletter diária com duas horas de música “para trabalhar”. Por aqui já pintou de Wendy Carlos a Rejoicer, passando por peças modernas para piano e música eletrônica atual feita no Bronx. É gratuito, mas assinantes recebem mixes exclusivos via podcast e acesso ao conteúdo privado no Spotify (já são mais de 500 playlists). A dica de ontem, 29/04, foi o projeto/selo Jazz is Dead, do Ali Shaheed Muhammad, (A Tribe Called Quest).

para ler -> Clubes do livro

Semana passada mandei pros amigos do site ChickenOrPasta um post com indicações de clubes de livros, porque ler em 2021 é o equivalente de fazer pão caseiro em 2020 — espero que o hype dure mais. Ainda no assunto “como reaprender a ler a Todavia promove um bate-papo sobre isso no domingo às 18h. Faz parte da programação do bazar da editora, que está com descontos de 20% em todos os títulos até 02/05.

newsletter amiga -> MargeM

Começo todo fim de semana tomando café na companhia do colega Thiago Ney. Não é um café presencial, claro, e o Thiago nem sabe disso, mas sempre passo um cafezinho pra tomar na sala enquanto leio a MargeM, newsletter criada em 2019, que toda sexta-feira traz dicas (dezenas de dicas) ótimas de filmes, livros, sites, redes sociais e música (essas acabam sempre no Spotify). Dicas como a série “It’s a Sin”, que conheci por lá:

para ouvir (2) -> "A dor do luto é o outro lado do amor"

O podcast da semana da Gama é companhia constante do preparo do almoço de domingo aqui em casa. Semana passada o tema da revista foi dor, e o podcast falou sobre luto numa entrevista com a psicóloga Valeria Ulbricht Tinoco, supervisora do instituto de 4 Estações, focado em “vivências de rompimento”. A frase descatada acima veio dessa conversa sobre caminhos para acolher o luto, nosso e do outro, em tempos pandêmicos.

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bibliomania -> “Brazza”, Mariana Brecht

A roteirista paulista Mariana Brecht aceitou a oferta de uma produtora para trabalhar com uma empresa brasileira realizando um documentário na República do Congo. Chegando lá, teve o passaporte confiscado e se viu envolvida na produção de um filme sobre a vida do ditador local. A história é real, e Mariana conta em “Brazza”, publicado pela Moinhos em 2020, com ilustrações da artista franco-congolesa Anne-Muanaw. É um livro curtinho, pra ler em uma tarde, que não é apenas sobre sobreviver em situação estranhíssima num país estranho. É sobre mesmo assim não ter certeza se quer voltar pra casa, porque talvez essa casa nem esteja mais lá.

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