Tá todo mundo tentando: gerenciar declínio

Há umas semanas as coisas aqui em casa começaram a quebrar.

🎶 para ouvir lendo: “Halah”, a mais linda do Mazzy Star (Spotify/Youtube)


Há umas semanas as coisas aqui em casa começaram a quebrar. Teve quadro que caiu, guia que partiu, máquina de lavar que deu defeito, planta que morreu, comida que estragou, menstruação que interrompeu. Tudo sem um motivo óbvio. O cabelo soltando da cabeça em tufos, a volta da anemia, parceira de anos, as costas doendo dia sim e outro também. Má gestão do meu sempre pouco dinheiro, más notícias chegando, incapacidade de dormir uma noite inteira. A ansiedade, sempre ela, consumindo minha energia até o limite do paralisante. Dias inteiros de pijama no sofá fumando cigarro e vendo show de drag queen enquanto o tempo se arrasta e mesmo assim passa rápido demais. Moletom sujo, pipoca para o jantar, uma piora geral. Ora tristeza, ora enxaqueca. A própria tristeza parece bonita no espelho, é um lugar quentinho, a desculpa vem fácil: não quero, não posso, não agora, não sei, não consigo. É preciso um tapa, uma ducha fria, um susto para despertar e sair dessa. Bem, ele veio num domingo de sol em que eu, no meu otimismo infinito, pensei que dava pra esticar mais um pouco, não é pra tanto, vai dar pé, insistir faz parte, me deixa tentar, prometo que vou fazer tudo ficar bem. Não para sempre, que isso não existe, mas é que ainda é cedo. Não era. Declínio exposto, só faltava ver. Data de validade expirada e o que quer que seja que estivesse guardado na embalagem tinha azedado. E não azedou pouco, não. Mas tudo bem. As pessoas, elas mudam. Mudei junto e ao invés de lutar contra, que é o que eu faço normalmente, decidi seguir o fluxo e aceitar o que o tempo impõe. Agora, em outro domingo de sol, vejo que as plantas voltaram a crescer depois que eu dei um amor para a terra e tirei as folhas mortas. Consertei a máquina de lavar. Faz uns dez dias que não deito no sofá, o sol entra pela janela e escorre pela sala, os gatos se esticam no tapete limpo para receber calor, a estante de livros está arrumada. O coração não vai ficar afundado pra sempre e a inspiração vai voltar – ela sempre volta.

* Ouvi esse ‘managing decline’ da minha mentora no Substack Local, a Jen. Ela estava falando sobre a situação no jornalismo no mundo nos últimos, sei lá, vinte anos: ‘we are managing decline’. Yes, friend, we are. Nós aqui no Brasil temos gerenciado o declínio com diferentes níveis de insucesso. Declínio social principalmente, mas declínio pessoal também.


📥 Paulicéia

O assunto da semana no Paulicéia foi o Prato Firmeza, projeto do laboratório de jornalismo Énois. A primeira parte, enviada na segunda-feira, fala sobre o Prato Firmeza Preto, guia gastronômico da culinária afro-brasileira em São Paulo. E na edição de quarta-feira falamos sobre os próximos guias e o festival Prato Firmeza, que acontece online no começo de agosto.

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📗 Qualquer lugar menos agora

O JP Cuenca (“Descobri Que Estava Morto”, 2016) lança novo livro agora em agosto, com tema que fala alto no meu coração: crônicas de viagem. São histórias curtas, divagações e descobertas ao redor do mundo pré-pandemia, da Alemanha ao Haiti passando por Japão e Egito. Chama “Qualquer lugar menos agora” e já está em pré-venda.

Aproveitando: o JP vai dar uma oficina de criação literária que não é bem como as outras oficinas que estão rolando por aí. É sobre processo de escrita, tem poucas vagas e inclui uma mentoria personalizada. Inscrições encerram hoje, vai lá.


📚 Estou lendo: “Avid reader: a life”

Estou passando por uma daquelas fases estranhas com livros, que acho que todo mundo que é leitor/a na vida encara: lendo vários livros ao mesmo tempo e não concentrando em nenhum. Não me desespero, sei que passa, o importante é continuar a nadar. O deficit de atenção segue gritando, eu sigo insistindo. Nessa busca por algo que me prenda, cai em “Avid reader: a life”, autobiografia do editor norte-americano Robert Gottlieb, uma leitura mais leve e bem-humorada, equilibrando boas anedotas do meio literário nova-iorquino com muitas citações de livros, filmes, peças de teatro, dança e bolsas de baquelite – Gottlieb é um dedicado colecionador delas.


📮 Newsletter da semana: Giro Latino

Newsletter semanal com as principais notícias dos países da América do Sul. “É um esforço conjunto de acompanhar nossos vizinhos de continente, esse agitado e intrigante caldeirão cultural,” explica a about page. E não falta assunto: pandemia, revoltas populares, eleições, trocas de poder — tudo explicado no seu email uma vez por semana.


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