Tá todo mundo tentando: seis perguntas para _flows magazine

Cata esse cross-posting, Brazeel! E mais: uma crônica direto de 2017, curso novo da Luiza Feccarota, "Kentukis" e as entrevistas do Paulicéia na semana.

Para ouvir lendo: “Pleasant Valley Sunday” na versão da Carole King (Spotify, Youtube). Dica erfeita da Luciana _flows – continue lendo, você vai entender!


Essa semana nós decidimos fazer algo diferente. Por “nós" quero dizer eu e a Luciana Andrade, autora da ótima _flows magazine (você leu a edição da semana passada sobre supermercado?), que considero uma newsletter-irmã da TTMT já que as duas saem no mesmo dia e horário (sexta-feira bem cedo) e têm certa temática (a vida, essa desgraça) comum. Enfim (você leu a TTMT sobre o “enfim"?), nós decidimos fazer uma edição conjunta (o termo gringo é cross-posting) na intenção de nos apresentarmos pras audiências irmãs e quem sabe inspirar outras newsletters amigas a brincar de caderno de perguntinhas também. Sim, uma corrente, só que ao invés de caderno de papel na escola é com newsletter amiga. Se você fizer algo parecido com a/o colega, por favor, conta pra gente! Então nas edições de hoje a Lu responde meia dúzia de perguntas minhas aqui e eu respondo meia dúzia de perguntas dela também lá na _flows.

No que você colocaria fogo, se pudesse?

Em prédios cafonas. Colocaria todos em uma sala e faria a Shoshanna em Bastardos Inglórios. É cada edifício horroroso em SP, reparou? Esses com nomes pretensiosos, Venetto di Capri, Villaggio di Firenzi, Higienópolis Around (verídico) etc, lar de pessoas também pretensiosas. Costumam ter vidro verde na varanda, livro comprado por metragem, um filho Enzo e muito acabamento desenhado de gesso, criando um passado neoclássico que não temos, ou então uma pirâmide aleatória no alto. Amo as formas geométricas totalmente nonsense nos topos de prédios - será algum sinal pros aliens no dia D? Jamais saberemos. E não é apenas sobre o estilo da arquitetura, quem sou eu, mas é que esse tipo de prédio geralmente só gera trânsito e não devolve nada pra cidade, não tem uma lojinha no térreo, mata a vida da calçada, deixa o lugar inseguro, segregado, monótono e sem alma. Tudo poderia virar pracinha e cachorródromo.

O que você salvaria de um incêndio na sua casa?

Seria legal se o incêndio fosse planejado, porque não sou boa de agir no impulso. Odeio pressa, improviso, loucuras. Tudo meu tá com alarme pra lembrar no celular. Quando teve um vazamento gigante de gás na minha rua numa madrugada dessa, há alguns meses, demorei até a reagir. Troquei de roupa (sim), peguei meu poodle e meu celular, desci. Tinha gente na rua até com uma bolsinha de mão, povo preparado, tipo Tóquio. O gás vazando shhhhh e eu invejando a organização do povo que lembrou dos itens essenciais. E eu nem na minha carteira pensei. Uma amiga minha sempre comentava que nunca saía com calcinha velha, porque se ela precisasse ser socorrida na rua por estranhos ou paramédicos precisaria estar decente. Queria ser assim sempre pronta. Então acho que numa situação limite seriam o poodle e o celular mesmo. Mas se rolasse uma antecedência no incêndio levaria também uns pijamas, a KitchenAid (foi meu sonho, me deixa), notebook, minha faca de pão (ela é ótima) e o kindle. 

Onde você estava no 11/09/2001?

Na sala da casa dos meus pais em Fortaleza. Tava sentada no sofá vendo Namaria ou Bom Dia Brasil, ia pra faculdade só depois (estava no segundo semestre de Jornalismo) e de repente aquelas imagens de filme. Surreais. Sempre fui muito vidrada em grandes coberturas de eventos, tipo acidentes da TAM, morte do Senna, família Richthofen, acompanhei até a reconstituição do crime da menina Isabela no domingo legal do gugu, que durou umas 5h e cujo auge era a hora de jogar a boneca forense, eu fascinada e paralisada assistindo. Então fiquei também muito impactada pelo 11 de setembro, não parava de ler reportagens, ver tudo o que passava na TV sobre cada detalhe. Óbvio que foi o assunto na faculdade a tarde - e pra sempre. 

E no 07/09/2021?

Na sala de casa, dessa vez em SP, assistindo Valéria na Netflix e terminando um livro bom, o Querida Konbini. Tomei café, fui no mercado e tentei ao máximo esquecer que aquele dia horroroso tava acontecendo, tentei construir a minha bolha da paz. Mas era muito difícil, dada a imensa quantidade de helicópteros sobrevoando a região e as caravanas de gente cafona (que provavelmente mora nos prédios cafonas que comentei sobre incendiar acima) passando barulhentas por aqui, rumo a Av. Paulista. Uma galera que tem cara de infeliz, nem disfarça. Que tempos difícieis. Aguardo muito a roleta do karma e esses exaltados serem humilhados (e alguns presos).

Pq decidiu criar a _flows e como tem sido sua experiência com a newsletter? Você planeja os assuntos ou vai no freestyle a cada semana? Você faz um acompanhamento tipo se as pessoas estão clicando nos links que você indica?

Fiquei tipo um ano pensando se o mundo precisava de mais conteúdo, de mais uma newsletter, de mais uma pessoa dando opinião, em um mundo que o povo só dança. Por outro lado, alguns amigos gostavam das dicas de links, filmes e coisas que eu colocava nos stories - e comecei a ficar com dó das coisas sumirem depois de 24h. Não tinha pensado numa estrutura ou numa linha editorial para a flows magazine, queria basicamente reunir links e experimentar como era escrever de graça (coisa que há uns 15 anos não fazia). Foi a melhor coisa que poderia ter feito por mim, juro. Libertou minha vontade de escrever, antes sequestrada pelo capitalismo, tinha virado escopo, expediente. Reapaixonei, estou vivendo uma segunda lua de mel com o notebook. Tive muito medo de publicar, ser julgada ou ninguém ler, mas foi uma imensa surpresa o tanto de gente legal que veio não sei bem de onde. Sempre recebo alguns emails e comentários a cada edição - e é tanta conversa legal que surge. A beleza do aleatório. Algumas pessoas se tornaram correspondentes mesmo, com quem falo com frequência - inclusive a senhora, dona Gaía* ;) Uma alegria me aproximar de pessoas por meio da escrita. Sei que meus textos são longos, é uma loucura alguém ler. Amo. A cada semana vou freestyle e com o tempo esse exercício de improviso foi ficando mais fácil. Os links eu junto no Notas (que sincronizam com o celular, facilita) e vou agrupando, às vezes acabam combinando com a news. Sempre que dá, indico um livro que tenha a ver também. Não quero ser mística mas muitas relações surgem na hora, enquanto escrevo. Sobre números: no máximo olho quantas pessoas leram cada edição, quantos assinantes chegaram, mas não fico analisando métricas - zero performance.

Pra terminar: indica três newsletters que você acompanha.

Sobre os Dias uma news com ótimas reflexões e uma escrita linda, da Clara Vanali. Mulheres Falam com temas que me prendem, dicas boas e leveza, da Priscila Pacheco. E Doses de Tiquira com crônicas muito gostosas de ler, com observações ótimas sobre pequenas coisas, da Luisa Pinheiro.

Uma crônica do passado: Paulista com Augusta, 2017

Hoje o maluco que berra sobre o fim do mundo tá dentro da estação Consolação, logo após as catracas, na direção da escada rolante do lado Centro. Deve ser por causa do frio, que deve bater sete graus em São Paulo. Ele vocifera algo sobre a Hecatombe, o fim dos tempos, a batalha final da humanidade. Tem jeito de cheirar a roupa suja e leite azedo, usa um terno marrom duas vezes seu tamanho e tem cabelos compridos ralos ao redor da careca redonda e, apesar do frio, tá todo suado. Ele está sempre por perto da saída da Consolação, onde passo quase diariamente, mas nunca parei pra ouvir. Primeiro que o barulho é alto demais. Segundo que tenho receio de que comece a falar diretamente comigo. Normalmente ele tá falando pra ninguém.

Subo as escadas rolantes e pensando quando foi que São Paulo começou a ter esse fluxo de gente digno de capital asiática. Talvez eu fique demais em casa, mas não lembro de ser assim antes, pelo menos não fora de situações como saída de grande evento ou o horário de pico na Sé. Mas a muvuca da noite ao redor da esquina da Paulista com a Consolação é outro tipo de pico, é um rush com energia de descarrego, um fuá. Todo mundo correndo em direção ao final de semana, pra longe do trabalho e da faculdade e pra dentro do que quer que seja necessário para espantar a poeira da rotina. Outro dia, quando ainda era verão, passei por aqui com um amigo gringo e ficamos vendo uma travesti de biquini preto, descalça, numa performance circular ao redor de um poste de trânsito, acompanhada de um cara com uma guitarra e outro com um pequeno teclado.

Hoje não tinha nada assim, mas tinha o exército de vendedores de qualquer coisa ocupando a porta de saída, seguidos pelo batalhão de hippies exibindo artesanato feio na calçada na frente do Center 3. O guitarrista magricela vestido de Pikachu que eu já encontrei no ônibus de manhã, eu a caminho da terapia, ele vestido de Pikachu, dormindo abraçado no estojo da guitarra com os pés por cima do amplificador. Ele fica no mesmo lugar onde, tradicionalmente, o Elvis da Paulista se apresenta aos domingos. Descontando a calçada do Trianon, esse deve ser o metro quadrado mais disputado por artista mambembe na área.

Tem uma roda ao redor de um menino também. Acompanhado de um colega fazendo beat box ele declama algo que parece urgente mas que fica escondido debaixo das palmas ritmadas do público e do barulho dos ônibus partindo no sinal recém aberto. Uma turma de minas trans sai do prédio da Anhembi Morumbi e passa pela senhora latina que vende bijuteria feita com cordões coloridos, na frente do café de cadeia gringo. Ao lado, um casal jovenzinho faz um dueto de violino. É a melodia de “Mio Bambino Caro”, a ária emotiva que todo mundo reconhece de comercial ou de filme. Paro pra ver porque musica clássica-meio-brega é comigo mesma e me emociono porque eles são bem ensaiados. Ao final, se beijam, as pessoas aplaudem e eles passam o cartaz: estão pedindo dinheiro para poderem se casar. Não sei se o casar deles é uma questão de cerimônia ou de coisas práticas tipo comprar geladeira. Provavelmente os dois, talvez um truque. Funciona: moedas e notas de R$2 caem no estojo de violino aberto.

Ainda nem cheguei na esquina. Não falei do doidão de barriga de fora e camiseta por cima da cabeça que de tanto em tanto tempo encontro perto ali dos prédios dos bancos provocando os seguranças. Um dia antes da Greve Geral de abril ele estava gritando com as pessoas, dizendo pra não vir pra Paulista, que ia correr sangue. Ninguém se importou. No dia seguinte teve discurso do Lula para 300.000 pessoas.

Às vezes acho que tô ficando louca, como esse maluco e como o senhorzinho da Hecatombe dentro da estação. Esqueço de comer, tenho pensamentos obsessivos, alimento amores impossíveis. Mas no fuá da avenida percebo que não sou só eu. É nosso tempo. Hoje mesmo, depois de comer pastel de nata naquele lugar português bastante decente perto da casa de sucos, vi uma mulher caminhando rápido na minha direção. Ela carregava uma pastinha plástica e vestia roupas normais, do tipo de trabalho em escritório, calça preta, camiseta, uma malha, uma mochila mais pro prático do que pro bonito, sapatos sociais baratos, cabelo preso num coque. Chamava a atenção porque estava furiosa, gritando pro nada algo sobre “isso não vai ficar assim, você vai ver, isso não pode ficar assim, eu vou lembrar”. Achei que estava falando num telefone, quem sabe no fone de ouvido, mas não. Ela estava falando, gesticulando com os braços enquanto andava, e estava falando pra mim, depois pra pessoa atras de mim e pra pessoa atrás da pessoa atrás de mim, falando pra quem pudesse escutar: o mundo está acabando, mas isso não vai ficar assim.

Paulicéia dessa semana

Essa semana falei com três pessoas de São Paulo que gosto muito: Dani Bravin e Cassia Campos, da Sede261, e Bruno Bocchese, do Fel (e em breve também do Paloma). As fotos, como sempre, são do Ale Ruaro. Vai lá e dá essa moral pra mãe.

Curso novo da Luiza Feccarota

Lá numas das primeiras edições da TTMT eu comentei sobre um curso ótimo que estava fazendo com a Luiza Feccarota, sobre comida, escrita e a obra da Nina Horta. Bom, eis que a Luiza está com curso novo na praça e vale a pena divulgar: chama Língua & linguagem,  a comida e a escrita criativa com exercícios de degustação e, como o nome diz, esse é um curso prático. São cinco aulas presenciais na Escola Wilma Kövesi, em formato que combina teoria, experiências sensoriais como degustações, e a criação de textos. Informações a partir do Instagram da Luiza — atenção: é um feed que dá fome.

Estou lendo: “Kentukis”

Ando besta com os livros que a Fósforo anda publicando, unindo excelentes escolhas editoriais com um cuidado gráfico muito especial. Mas a verdade é que a capa nem precisava ser incrível e o papel nem precisava ser ótimo para a leitura de “Kentukis” ser uma das melhores do meu ano. O livro é curtinho e ágil e conta as histórias de uma porção de pessoas espalhadas ao redor de um mundo que está vivendo a febre dos kentukis, bichinhos eletrônicos controlados remotamente, algo como tamagochis atualizados para quem usa tiktok. Um kentuki funciona assim: uma pessoa leva para casa um bicho eletrônico (que pode ser um panda de pelúcia amarelo-neon, um dragão roxo, um corvo verde, etc) com rodinhas, bateria e câmeras de alta definição nos olhos. Esse kentuki, uma vez ligado, é conectado de forma automática e randômica a uma pessoa em outra parte do mundo, que então controla o bicho e tem acesso ao que quer que seja que é oferecido a ele: a companhia de um idoso solitário, a amizade de uma criança doente ou, sei lá, situações sexuais confusas. No mundo criado pela autora argentina Samantha Schweblin, os kentukis ainda não estão regulamentados mas já ocupam enorme espaço na sociedade, ou seja, é tudo muito crível. É impressionante também a capacidade da autora de imaginar os muitos cenários de um mundo com kentukis, de frentes de libertação de kentukis presos à crimes e abusos - inclusive, não é surpreendente que no mundo do livro os kentukis se tornem uma categoria muito procurada no x-videos. É capaz que você termine a leitura desejando a experiência de um “amo” ou de “ser” kentuki. Terminei dando graças a Oxalá que essa parada é fictícia.