May 20 • 5M

Tá todo mundo tentando: fazer uma limpa

Um repeteco na boa intenção

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Uma newsletter sobre o mal-estar da vida na São Paulo dos anos 2020 | por Gaía Passarelli -> http://gaiapassarelli.substack.com
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🎧 Para ouvir lendo: “Spartacus Love Theme” do Bill Evans (Tidal/Youtube)

Há uns dias comprei uma porção de caixas de papelão e rolos de fita adesiva, que agora estão servindo de abrigo para os gatos na minha sala. Não é mudança — Oxalá me ajude a não ter que mudar de casa em 2022 (ops!) É uma ‘limpa’ de começo de ano, versão suave do “spring cleaning” gringo, uma olhada em cômodos, armários, gavetas, estantes para descartar o que não serve.

Faz um tempo que ando tendo aflição do tudo que carrego. Tenho convicção de que quase tudo que me cerca é dispensável. Sou uma pessoa que mudou muito de casa na vida: desde que sai da casa da minha mãe, lá no distante ano 2000, morei em onze lugares diferentes. Mesmo antes disso, minha vida não era muito estável. Uma amiga certa vez elogiou o que chamou de minha “capacidade de adaptação”. É uma forma de ver. Mas mesmo mudando de casa tantas vezes, e mesmo promovendo limpas ocasionais, ainda assim eu acumulo, eu me apego. Tenho, por exemplo, uma coleção de jornais sobre a cena musical de NY, que trouxe de uma viagem em 2012. São dez anos carregando isso entre uma casa e outra, sem jamais encontrar uma justificativa melhor que “mas é muito legal”. Não dá.

Sei que tudo eventualmente acaba no lixo, nas caixas de doação ou na casa de um/a amigo/a. Às vezes dá certo. Há uns anos, uma amigona topou receber minhas coleções de flyers de festas dos anos 90/00 e fitas K7 — hoje, boa parte está exposta no Museu do DJ, na Galeria Olido. E há coisas que sei que jamais terei coragem de me desfazer, como um lindo colar de fios metálicos dos anos 1960, que foi da minha avó, e uma minúscula bata amarela que minha mãe bordou, eu usei e meu filho usou quando era nenê. Coisas assim são raras e são a definição de valor afetivo, sempre devem ter lugar em uma casa. Livros, discos, fotografias em papel e algumas peças de arte com valor especial (não necessariamente monetário) também são frequentemente justificáveis.

Mas aquele tapoé manchado? Não. Os vidros acumulados esperando o momento em que vão virar, sei lá, recipiente de velas aromatizadas ou granola caseira? Também não. As caixas onde chegaram recebidos e que ficam guardadas no armário do corredor porque são boas/bonitas demais para jogar fora, as mini-amostras de perfume, a coleção de adesivos da antiga firma que super não trazem felicidade — é hora de ir. Não vou nem começar a falar de roupas, das centenas de páginas impressas de cursos variados e das dezenas de edições não lidas de suplementos literários. E, claro, tem ela: a gaveta do lixo eletrônico, leal guardiã de uma profusão de cabos, adaptadores, carregadores, pen drives, aquela capa de uns dois celulares atrás que você não usou mas também não jogou fora porque não conseguiu decidir se é reciclável ou não. Toda casa tem uma gaveta dessa. É um bom lugar para começar.

Botar tudo em caixas dá trabalho, mas essa é só a primeira etapa. Há que se descartar corretamente, separando o que é lixo (calcinha velha) do que tem vida útil (meias limpas em bom estado). Os jornais devem ganhar nova vida útil como forro chique das caixas de areia dos gatos.

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📚 #ChegouAqui

Importante: não são necessariamente livros que eu li, mas que recebi e que merece recomendação. A TTMT pode ganhar uma pequena porcentagem da venda caso a compra seja efetuada através desses links. Os livros também estão disponíveis em formato Kindle.

Mitos Gregos: Nas Tramas das Deusas - Charlotte Higgins

Gosto muito dessa coisa de recontar histórias da Antiguidade através de uma nova voz, uma voz que não teve espaço antes — falei (mais ou menos) sobre isso nessa edição passada da TTMT. E foi depois dessa postagem que chegou aqui essa tradução da obra da Charlotte Higgins, que propõe exatamente isso: recontar as histórias de Helena, Penélope, Circe, Hécuba e outras grandes personagens da cultura grega antiga, com vozes femininas. R$83,23/R$39,90 (físico e Kindle) na Amazon.

A História Secreta - Donna Tart

Ainda dentro da temática “recontando gregos": esse romance de 2016 mistura obsessão com cultura antiga e thriller numa história meio coming of age com humor negro. Tô lendo ainda, e adorando. R$36,90/R$26,50 (físico e Kindle) na Amazon.

Encaixotando minha biblioteca: Uma elegia e dez digressões - Alberto Mangel

Esse livrinho é um tesouro, e não só por causa da bonita edição em formato pequeno com bordas arrendondadas, mas por que é uma sincera (e sensata) declaração de amor aos livros, que o autor argentino faz ao se despedir da biblioteca da casa onde viveu no interior da França. R$21,90/R$17,40 (físico e Kindle) na Amazon.

e você, tá lendo o quê?

🎙️ Não sei, mas desconfio

No começo desse ano a Rê Quintella me procurou para contar que estava estreando um podcast chamado, adivinha?, Tá Todo Mundo Tentando. Conversa vai, conversa vem, ela acabou chegando num outro nome, também ótimo: “Não sei, mas desconfio". E acabou, muito gentilmente, me chamando pra participar de um episódio — embed abaixom mas deixo a dica de ouvir todos os episódios. Tem gente muito legal, como Mapú Huni Kuî, líder espiritual e fundador do Centro Huwã Karu Yuxibu (no Acre), e Fernanda Lenz, fotógrafa e facilitadora de Ecologia Profunda. Vai lá!

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