Tá todo mundo tentando: falar a verdade

crônicas do mal-estar dos anos 2020 (e umas dicas de coisas bacanas também)

Pra ouvir enquanto lê: “Romeo and Juliet” do Dire Straits.

Eu me arrumo quando você vem.

Você só vai me pegar no meu estado normal, me arrastando com sujeira nos olhos, cabelo oleoso e moletom furado, se aparecer de surpresa direto na minha porta.

Na porta do apartamento mesmo, não na portaria do prédio, porque sei quanto tempo leva entre o interfone e o elevador, e é suficiente para botar uma roupa limpa, lavar o rosto, passar um desodorante e talvez até prender o cabelo.

Pra me ver como sou todos os dias você precisaria me surpreender levando o lixo pra escada antes de dormir, ou saindo cedo pra ir ao mercado, máscara, óculos escuros e fone de ouvido, sempre meio apartada do mundo.

Quando sei que você vem, me arrumo. Faço assim porque gosto de cada etapa que antecede sua chegada. Gosto do banho quente, de passar creme, de sentir a pele ganhando viço e cor. Gosto de soltar os cabelos e me lembrar que são cheios e escuros, gosto da faixa cinza começando a aparecer do lado esquerdo. Eu sempre me arrumo quando você vem porque te receber na porta é o melhor momento possível. E você não sabe porque disfarço: se fosse me arrumar de acordo com o que sinto, seria produção de baile.

Me arrumo porque acho que você merece o esforço, porque tem graça, e porque é um prazer ver as roupas de cima e de baixo irem tão rápido pro chão. Combino calcinha com sutiã, perfume de leve atrás do pescoço, um tantinho de máscara pra arrumar as sobrancelhas, porque me olho no espelho e me acho bonita e quando me sinto assim consigo fazer você me olhar sem distração.

Me arrumo quando você vem porque assim posso escolher te dar ou não o privilégio de ver quem sou de verdade. É um poder que você precisa conquistar e que você só tem quando estou suada e descabelada na cama, rotina que não reservo pra mais ninguém. É um jeito de mostrar que levo essa interação a sério e também de definir um limite: você é bem-vindo, mas não é de casa.

Eu me arrumava quando você vinha, até ver e ouvir seu alívio em não vir mais. Essa verdade desceu machucando a garganta e é tão feia quanto meu corpo fechado nesse moletom cinza descosturado, que talvez esteja precisando lavar. Tão feia quanto eu sou quando sentada no chão da cozinha que perdeu a data da faxina, fumando cigarro de uma marca que eu nem gosto, olhando pro alto sem coragem de atender ao interfone e considerando quão preocupante seria começar a beber num dia útil antes das quatro da tarde.

É assim que é. Sem esperança e nem desespero, sobra só essa verdade desarrumada pra aquecer o corpo.

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Chegou aqui: Bússola

Novo clube de assinatura de livros da Dois Pontos, uma livraria “feita por gente que ama livros” (como eu e, imagino, como você que está me lendo agora). A Dois Pontos tem dois clubes: Histórias Irresistíveis, de ficção, e Bússola, de não-ficção. Assinantes recebem todo mês uma caixa com o livro surpresa e guia de leitura, e também garantem descontos fixos no catálogo da livraria, que entrega pra todo Brasil. Vale seguir a Dois Pontos e suas ótimas recomendações não-algorítmicas.

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Para ouvir: Braincast sobre jornalismo e newsletters

Newsletter tá muito ~in. Por quê? Eu aposto em exaustação de informação e redes sociais. Enquanto nas timelines estou exposta ao funcionamento dos algorítimos, na minha caixa de email recebo/leio apenas o que quero, quando quero (descontado o spam, mas tô na internet desde 1997 e já aprendi a lidar). Pessoalidades à parte, o episódio 405 do Braincast rebece a Marcela Domini, do Farol Jornalismo, para aprofundar a discussão sobre a migração de jornalistas de renome para o email, motivados principalmente pelo apoio do Substack.

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Para comprar: 150 Fotos Para SP

150 imagens doadas por autores em impressões vendidas online direto ao público, pelo preço fixo de R$200 – essa é a ideia do projeto, que tem segunda edição acontecendo até 10 de junho. Dá pra ver o acervo direto no Instagram e comprar pelo site 150fotosparasp.com.br. A renda é transformada em cestas básicas que serão distribuídas pela Treino na Laje, entidade que assiste pessoas em situação de vulnerabilidade nas periferias de São Paulo. Em 2020 o valor total arrecadado foi revertido em 1926 cestas básicas, 2536 peças de roupas e 2200 máscaras, que foram distribuídas pelo Padre Julio Lancellotti.


Para apoiar: El Cerdo + Revista Beleléu

Eu sempre perco um tempo nas áreas de livros infantis das livrarias. Perdi o hábito de comprar infantis depois que meu filho cresceu e o gosto dele mudou (acabou de pedir “O Processo” do Kafka) mas sempre dá gosto de ver como são bonitos e bem acabados e inspiradores os livros para os pequenos. Bom, o Galvão Bertazzi/Vida Besta, junto com Tiago Lacerda/Elcerdo e a Beleléu Comics estão com um crowdfunding para lançar “Olívia Foi Pra Lua”, uma história “contada pelo olhar sensível de uma criança, capaz de transformar um mundo de ideias em realidade”. Dá pra apoiar a partir de R$10. O vídeo abaixo vai te convencer:


Para assinar: The Spirits

Estamos vivendo um tempo de “existe uma newsletter sobre isso!” e o achado dessa temporada é a ótima The Spirits, em inglês, uma newsletter sobre bares e drinks. Cada edição tem uma historinha, uma receita, umas músicas com vibes de bar e uma lista de compras para já pensar o drink da semana seguinte — pensa uma newsletter com entretenimento e informação pra quem bebe. Meu go-to drink é o dry martini (quanto mais seco melhor, que nem minha alma) e apareceu em outubro passado.


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rolou um monte de comentários na edição de sexta passada, que foi a mais lida/compartilhada até agora. fiquei surpresa, achava que essa crônica ia passar meio batida, por essa coisa “ai eu acordo cedo muito bom sou adulta demais pipipipopopo”. mas não canso de me surpreender com o que gera identificação entre autora/leitores: quem diria que acordar cedo é assunto? essa semana não vou propor nada pra caixinha de comentários, só deixar um obrigada pra vocês que estão lendo/compartilhando. sharing is caring demais.

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