Tá todo mundo tentando: estrada-terapia

Um dos raros momentos da vida adulta em que estamos fazendo algo só por querer fazer.

Para ouvir lendo: “E-bow the letter”, do “New Adventures in Hi-Fi”, melhor disco do REM. Sigo esperando o momento em que o Michael Stipe será reconhecido como o tremendo letrista que é. (Spotify/Youtube)


Estrada-terapia

Sou contra sair de São Paulo nos feriados. É um jeito de ser diferentona, claro, mas na vida pré-pandemia também era um jeito de aproveitar o que a cidade tem de melhor (museus, cinemas, parques, ruas, restaurantes, bares, isso que se convém chamar “vida cultural”) sem o que tem de pior (o excesso de gente). Depois de março de 2020, quando todos os dias passaram a ser iguais, com alguns piores, isso de não viajar no feriado perdeu o sentido. A própria noção de feriado passou ganhou um selo de “tanto faz” depois que perdi meu emprego CLT das nove às seis. E viajar, bom, quem é que tem dinheiro pra isso? Acontece que caiu um capilé aqui e decidi viajar no sete de setembro. Mantendo lealdade ao contra-fluxo, não tentei escapar de São Paulo junto com o Êxodo do Fim de Sexta-Feira. Fiquei em casa e me organizei para sair antes da manifestação da classe-média vestida de verde e amarelo na Paulista. Era pra ter saído na segunda, mas os compromissos aculuraram e decidi sair na terça bem cedinho. Acabei saindo cedo o suficiente para não pegar trânsito na 9 de Julho, mas tarde o suficiente pra ver os apoiadores do presida chegando na Paulista – por volta das sete já tinha gente tocando vuvuzela, sério. Fiz a mala, alimentei os gatos, tirei o lixo e entrei no carro como se estivesse fugindo de casa, correndo, sem olhar pra trás. Só relaxei quando entrei na Carvalho Pinto, a estrada que mais peguei na vida e que conheço melhor. De repente estava vivendo um dos raros momentos da vida adulta em que estamos fazendo algo não por ter que fazer, mas por querer fazer. O carro alugado com câmbio manual, que eu prefiro, sozinho na pista de ida, meu disco preferido pra situação de viagem tocando baixinho. Vim pensando em porque gosto tanto de dirigir em estrada, porque gosto tanto do “New Adventures in Hi-Fi”, porque gosto tanto das montanhas da Mantiqueira. Tá ali com gostar tanto de pão com manteiga e mel, com gostar tanto de uma xícara de café acompanhada de um pedaço de chocolate amargo. São gostos afetivos. Me parece que depois dos 40 anos temos cada vez mais desses. Me parece também que em tempos tão extraordinários quanto esses que vivemos qualquer coisa reconhecível, familiar, é bem-vinda. É um respiro. Talvez por isso eu esteja voltando para escritores do passado que moldaram meu gosto quando eu tinha vinte e poucos anos – Hemingway e Fitzgerald são homens justificadamente canceladíssimos, mas como uma colega escritora apontou outro dia: qual macho do começo do século passado passaria no teste comportamental de hoje? Nenhum. Nem os do nosso tempo passam com folga. Mas volto nesses dois porque, assim como a estrada, eles têm algo que reconheço. O registro de uma geração festiva e a tragédia inevitável que se impõe no depois de tudo, tema da vida e da obra de F Scott, eu reconheço, eu quis escrever assim. A vida de aventuras pelo mundo e um apego feroz ao hábito de escrever todos os dias, tão forte em Ernest, eu também reconheço, eu quis viver assim. Ainda quero. Me parece que após os 40 e poucos essas oportunidades são cada vez mais raras. Por isso a importância de aproveitá-las, sempre na expectativa de voltar como uma pessoa diferente. Me parece que é pra isso que a gente foge: para tentar mudar.


Hoje não tem diquinhas. Desculpa.

Se você acompanha o TTMT deve ter notado que as crônicas estão mais curtas. A de hoje, inclusive. Acontece que tem sido exaustivo escrever as duas (às vezes três) edições semanais do Paulicéia + fazer uns freelas + tentar não morrer. Já tem um mês que toda semana penso “ah, agora vou furar” e nunca furo. Mas a pressão por CRIAR é real e às vezes a gente que cria precisa de pausa. Ou pelo menos uma semi-pausa. Por isso peguei a estrada essa semana – estou escrevendo esse parágrafo de desculpas enquanto asso tomates da roça com alecrim e olho o vento espantando as maritacas das árvores que fazem sombra na janela. Só de ter janela já é um descanso e tanto. Obrigada por entender.

Semana que vem eu volto \o/

com uma surpresa e as ~dicas de sempre (eu sei que vocês gostam das dicas).