Jun 17 • 6M

Tá todo mundo tentando: encaixar

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Gaía Passarelli
Uma newsletter sobre o mal-estar da vida na São Paulo dos anos 2020 | por Gaía Passarelli -> http://gaiapassarelli.substack.com
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🎧 Para ouvir lendo: "Recharge & Revolt” do Raveonettes. And I'm tempted to duel even the sun. (Tidal/Youtube)


Sempre acho muito maluco como as coisas vão encaixando aos poucos. O primeiro dia, a primeira semana após a mudança é um horror. Eu vou descobrindo, por exemplo, que a válvula da privada faz barulho de noite. E entrando em loopings de problemas organizacionais — onde foram parar meus panos de prato? Mas de alguma forma as coisas vão se entendendo, vão encontrando seus sentidos.

Hoje voltei da rua e percebi o apartamento com cara de casa muito agradável. Os abajures com luzes amarelas ajudam nessa sensação de aconchego, o equivalente de uma xícara de chá num dia frio. E a estante de livros arrumada me dá uma impressão de ordem — olha lá, as coisas estão encaixadas em seus lugares, as lombadas bonitas dos livros de arte estão em suas linha, as lombadinhas repetidas dos volumes de literatura estão ocupando suas casas numa ordem que só eu entendo. Gregos, russos, argentinos, os livros da Geração Perdida, meu exeplar batido do “Portable Dorothy Parker”, as escritoras do Brasil atual – cada um no seu quadrado.

Começar fase nova tem algo de abrir a porta pra um espaço que você não conhece. Esse apartamento novo, por mais lindo e charmoso e especial que seja (é demais mesmo, falarei disso no futuro) tem um quê de lugar escuro, assim, quase misterioso. Os gatos ainda não elegeram seus lugares preferidos, os quadros ainda estão encostados nas paredes, há muitas caixas e as coisas na cozinha estão guardadas de um jeito pouco prático, então cozinhar sempre envolve ficar abrindo gavetas e portas para encontrar o que quero. Minhas coisas são todas desconjuntadas, então me vejo em situações banais e irritantes tipo tentar encontrar a colher azul que comprei em Oaxaca, porque ela combina com o prato onde servi o arroz amarelo da rotisseria síria da esquina, sabendo que vou comer sozinha, no sofá cheio de pelo de gato enquanto procuro em vão uma série interessante no streaming.

Essas coisas são importantes, porque as memórias dos lugares onde estive são a bússola pra me guiar no lugar em que estou agora.

ilustração: Tiago Lacerda » @elcerdo

Quando nasci, tive meningite bacteriana. Peguei ainda na clínica e fui diagnosticada por um jovem pediatra amigo da minha família quando tinha três dias de vida. Desnecessário dizer que quase morri. Meu primeiro ano, segundo a mitologia familiar, foi em hospital. Meu avô insistia em dizer que era um milagre, que Deus tinha me dado uma segunda chance, e que eu precisava fazer o melhor possível com essa chance — mas, assim, sem pressão, tá? Nem sempre fiz o que ele mandou, é claro, inclusive passei a adolescência fazendo exatamente oposto, numa sanha autodestrutiva que talvez só por milagre mesmo não tenha me matado. Hoje, parece, vivo uma terceira chance: nem a meningite e nem a brutalidade da minha adolescência me mataram. Da meningite, claro, não lembro. Mas da adolescência infelizmente lembro bem, e às vezes algum gatilho reacende a Gaía de 13 anos, sempre com muita raiva e uma tristeza profunda, que hoje tento tratar com certa gratidão.

Sim, eu faço muita terapia, mas normalmente o que me salva vem da literatura, seja escrevendo ou lendo. O Caio F (sempre ele1) escreveu: “deve existir algum sentido, ou o que será depois?" E, de fato, no meio dos absurdos indizíveis das minhas memórias, insisto em procurar o sentido, porque sei que essa dor é tão parte do que sou quanto a crença inabalável de que mereço ser feliz — e serei, não importa, jamais, o que outros me digam ou me façam.

Não é meu primeiro recomeço e dificilmente será o último. Cada recomeço é um presente — um milagre, como dizia Seu Sebastião. E sei que viverei o suficiente para poder recomeçar ainda muitas vezes, sempre trazendo comigo algo do passado, sempre fincando os dois pés no presente, sempre abrindo espaço para o futuro.

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🏠 Ligação Refúgios Urbanos

O podcast Ligação Refúgios Urbanos foi criado durante a pandemia com uma premissa simples: quinze minutos de conversa com um colaborador ou amigo da Refúgios. E rendeu uma porção de papos interessantes, na medida para quem se interessa por diferentes aspectos pela cidade de São Paulo.

Esse episódio abaixo, o Monólogo, traz o fundador da Refúgios, Matteo Gavazzi, contando um pouco da trajetória da imobiliária, passando pela escolha do nome pelos muitos erros normais de qualquer empreendimento feito com o coração. Sempre movido por uma paixão genuína por São Paulo e sua arquitetura, o Matteo vai contando uma série de histórias e repartindo aprendizados que destacam o poder das conexões humanas e da importância da paciência: “As coisas levam tempo. Às vezes, anos. Mas não desista do que você sente. E aprecie seus tropeços, às vezes é de em um tropeço que vai aparecer uma história incrível” . Outros episódios que valem seu tempo: Jornalismo e arquitetura com Raul Juste Lores, Papo sobre o Centro Histórico de São Paulo com Rafael Guedes e Arte tumular com Renata Nogueira.

conheça a Refúgios Urbanos

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Dúvidas? Me escreva por aqui – é só responder esse email.

📚 estou lendo

Importante: esses não são necessariamente livros que eu li, mas que recebi e que merecem recomendação. A TTMT pode ganhar uma pequena porcentagem da venda caso a compra seja efetuada através dos links abaixo. Alguns livros também estão disponíveis em formato Kindle.

“amor mais que maísculo”

Como parte das celebrações dos 70 anos da poeta carioca Ana Cristina César, a Companhia das Letras lançou essa seleção epistolar que se manteve inédita por mais de cinco décadas. A correspondência entre uma jovem Ana C e seu então namorado Luiz Augusto se dá através da experiência do intercâmbio dela e do exílio político dele e tem discos, livros e filmes como cenários de apaixonadas declarações de amor. Para ter na cabeceira e folhear sempre que precisar de inspiração. 🏷️ Compre por R$84,90/R$39,90 (físico/digital)


👁️ estou aqui, você não vê?

Ainda sobre os 70 anos de Ana C: a Taty Leite, do canal Vá Ler Um Livro convidou várias mulheres legais (e eu) para ler ou declamar trechos de poemas. O resultado tá aqui:

A post shared by tatianyleite (@tatianyleite)

💌 duas horas com Carola Saavedra

A Salvo Conteúdo, uma das mais bacanas curadorias de conteúdo do Instagram, está realizando o curso "O mundo desdobrável: literatura como ferramenta de transformação", com Carola Saavedra, autora dos romances “Toda Terça” (2007), “Flores Azuis” (2008), “Paisagem com Dromedário” (2010), '“O Inventário das Coisas Ausentes” (2014) e “Com Armas Sonolentas” (2018). O curso acontece em agosto, e quem fizer a inscrição via Sympla recebe também uma edição de “O Mundo Desdobrável: Ensaios para Depois do Fim", que Carola lançou em 2021 pela Relicário.

A própria Carola quem descreve a proposta:

“Imaginar novos mundos é uma das tarefas mais urgentes e difíceis dos nossos tempos. A imaginação tende a repetir fórmulas há muito internalizadas. A literatura, porém, pode ser um espaço frutífero e potente para esse exercício. Não só porque muitas vezes ela diz o que ainda não sabemos, mas também porque nos oferece a possibilidade de contar o que ainda não foi contado. Nesse sentido, um olhar para outras formas do fazer literário [saberes indígenas, distopias, performances etc.] pode nos ajudar a pensar novas possibilidades para o futuro e para a própria vida.”

Interessou? Sim demais, né? Então corre AQUI que tem um cupom de desconto de 10% para quem é tentander 🥰

eu quero desconto!

ℹ️ o fim + o começo

Quem apoia o Paulicéia recebeu na semana passada um email explicando que o projeto será encerrado e que o Guia Paulicéia passará a fazer parte da Tá Todo Mundo Tentando.

As crônicas e dicas da Tá Todo Mundo Tentando continuam gratuitas, enviadas toda sexta-feira de manhã com uma crônica e dicas de livros (e outras coisas mais) e, a partir de 01/07, terá o complemento do Guia Paulicéia, minhas dicas de coisas legais para fazer em São Paulo, essa parte somente para apoiadores.

Minha intenção é criar mais conteúdos exclusivos para apoiadores, como desconto nos cursos que vou dar no segundo semestre e emails especiais — isso tudo, claro, será bem divulgado por aqui mesmo.

Caso você queira, pode apoiar o projeto desde já. E, como sempre, para falar comigo é só responder esse email.

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Também já escrevi sobre o Caio.