Tá todo mundo tentando: alguma coisa que funcione

de repente uma boa notícia não é disfarce para algo sinistro escondido no escuro.

Pra ouvir enquanto lê: “Shut up and kiss me” da Angel Olsen. Spotify/Youtube.


Dias bons, você sabe, tem sido raros. Mas nem tudo pode ser só desgraça, e talvez a única lição válida da tragédia que é o Brasil 2020-21, além de identificar com clareza quem é facista sem vergonha, é desenvolver a capacidade de valorizar coisas boas, as pequenas e as grandes.

Por aqui, tenho praticado tentar ficar feliz com qualquer coisa que me permita escapar do mal-estar diário. Mas é preciso esforço para não deixar as alegrias desaplaudidas, às vezes até desenterrar na marra a capacidade de enxergar graça na vida.

O jeito como o sol reflete nos espelhos dos prédios na Paulista, por exemplo, me faz dar um sorrisinho debaixo da máscara. Uma boa xícara de café, a Jezebel quentinha no meu colo, a música nova da Angel Olsen com a Sharon Van Etten, a vacina da minha mãe, uma foto nova do boy que eu gosto, as respostas que recebo depois de cada envio de newsletter, o livro que meu filho escolheu ler, vinho em caixinha, receber comida: tudo isso me deixa feliz.

É um equilíbrio para o hábito de só esperar o pior. Ao receber uma boa notícia de trabalho, por exemplo, meu radar interno se prepara para a pegadinha. Em momentos de pessimismo mais extremo posso até sabotar algo potencialmente benéfico só pela falta de traquejo com boas notícias. Minha terapeuta disse que não estou sozinha nessa, que grande parte dos pacientes hoje relatam a mesma expectativa viciada da decepção. Somos uma geração de pessimistas. Estamos sempre esperando o pior como sociedade, e trazemos o imensurável mal-estar do tempo para a vida privada – como poderia ser diferente quando estamos assustados, ansiosos, deprimidos, enlutados e machucados demais para insistir que algo bom pode funcionar? Baixar a guarda dá muito trabalho, melhor nem tentar.


Mas acontece que às vezes me dá uma vontade tremenda de tentar. Não sei se é por causa de algum paranauê astral, se é porque ele me ligou pra dizer oi, se é porque tenho um trabalho gratificante, se é porque encontrei o jeans perfeito, se é porque esses dias fiz uma receita deliciosa de maçãs assadas com gengibre e mel, se é porque uma amiga querida está superando um problema grave de saúde ou se efeito da visão dos meus três gatos dormindo juntos nessa manhã gelada de São Paulo. Às vezes é uma mistura disso tudo e hoje, agora, até parece que insistir vale a pena. De repente tentar ser feliz não é algo a ser evitado com todas as forças, assim como uma boa notícia não é sempre disfarce para algo sinistro escondido no escuro.

É preciso se iludir um pouquinho, sim. Sem ilusão a gente nem levanta da cama.

ps -> R, que bom que você leu até aqui. Te espero lá fora. 💋


Solteiro, casado ou outra coisa

O assunto na Revista Gama essa semana é relacionamento: como a pandemia nos obrigou a mudar as relações sexuais e amorosas. Nunca se separou tanto, nunca se usou tanto dating app, nunca teve tanta gente solteira. Se por um lado nunca estivemos tão sozinhos, por outro nunca foi tão urgente estreitar laços — alá eu querendo ver lado bom nas coisas de novo. A reportagem da semana também traz entrevista com o Daniel Jones, da coluna/podcast (e série da Amazon que ganha nova temporada em agosto) Modern Love, que há quase vinte anos lê centenas de histórias de amor toda semana e tem uma coisa ou outra a dizer sobre como o amor (romântico ou não) está mudando: “O fato de namorarmos estranhos significa que não confiamos nas pessoas como antes, e nos sentimos mais envergonhados quanto a nossas falhas.”

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Folhinha

Eu cresci numa casa em que se assinava a Folha de São Paulo. Abrir o jornal de manhã em cima da mesa da cozinha foi hábito da minha infância, adolescência e parte da vida adulta — hoje só aos sábados e domingos. E fui muito cria da Folhinha, o caderno da Folha para crianças com tirinhas, crônicas, passatempos e reportagens. Fiquei feliz quando o jornal voltou com a editoria, agora com a jornalista Marcella Franco. A Folhinha de sábado passado, adiantando o tema Dia dos Namorados (que é amanhã), veio especialmente bonita. Chama “O Amor é maior que todas as coisas” e é sobre o livro da Rita Carelli em que Amor é um coelho com apetite voraz.


curso da Natalia Timerman em julho

Sintoma de certa lucidez, estou indo para o quinto curso de 2021: a oficina de autoficção da Natalia Timerman (de “Copo Vazio”, um dos livros nacionais mais comentados do começo desse ano). Natália, que além de escritora é psiquiatra e doutora em teoria literária, vai trazer conceitos como pacto autobiográfico e trauma coletivo, analisando diferentes obras de Conceição Evaristo e Karl Ove Knausgård, entre outros.

Escrevendo o Brasil

Tá pouco clube de leitura, manda mais! Escrevendo o Brasil é uma iniciativa do Mateus Baldi, meu amigo pessoal & pessoa por trás do perfil Resenha de Bolso. A primeira edição é sobre “Vista Chinesa”, de Tatiana Salem Levy, e acontece em julho com presença da autora. Tem mais cinco edições já programadas, com Giovana Madalosso e Veronica Stigger, entre outros. É possível pagar pela participação em uma edição ou já garantir todas com desconto.

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Paulicéia

Minha nova newsletter estreia em junho. Será bissemanal, em português, falando da sobrevivência da cultura em São Paulo no pós-pandemia. O nome é Paulicéia e você já pode assinar.

Para a caixa de comentários: de onde você tem tirado esperança?

Todas as semanas são difíceis, algumas são piores. Essa semana foi especialmente trágica no Brasil. Soa ridículo dizer que é preciso continuar – mas é. Como tem sido por aí?

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